O filme Divino Amor: uma bela – e triste – distopia brasileira

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
02/07/2019

O filme brasileiro Divino Amor, de Gabriel Mascaro, pode ser visto como a crônica de uma distopia teocrática instaurada no Brasil num futuro próximo – bem próximo, pois o enredo é ambientado em 2027. 

Não se trata de uma distopia brutal nos moldes de 1984 ou The Handmaid’s Tale, em que o Estado usa a violência física para abafar oposições e manter o regime nos trilhos. Divino Amor filia-se à corrente de Admirável Mundo Novo, em que a dominação se dá pelo prazer em vez da dor. Embora fique subentendido que há consequências desagradáveis para quem desrespeita a fé oficial, o que é mais evidenciado na tela como ferramenta de controle social são os rituais de êxtase coletivo (a Festa do Amor Supremo substituiu o Carnaval e os grupos de apoio de casais acabam se revelando casas de suingue – o que, de novo, remete a Admirável Mundo Novo e suas orgias, que serviam para manter as pulsões instintivas sob tutela do Estado), bem como o pastoreio do rebanho por pregadores “self-service” que oferecem conselhos em mini templos drive-thru.

Em Divino Amor, vemos a teocracia não com o olhar totalizante, afastado e generalista de um narrador onisciente, mas sim como um recorte a partir de dentro, dos meandros da burocracia evangélica em que atua a protagonista, Joana (Dira Paes). 

Joana, ao contrário de tantas personagens de ficções distópicas, não é uma dissidente e não luta para derrubar o regime, pelo contrário: é uma devota convicta, com fé e amor inabaláveis, que acredita na burocracia e busca não destruí-la, mas humanizá-la. 

E a burocracia tem um papel central na trama. Na Gilead brasileira de Gabriel Mascaro, a “família”, ou pelo menos a denominação carola homem-mulher-filhos, é a base da sociedade e o Estado concentra a inventividade tecnológica nessa direção: enquanto os carros e a paisagem urbana são iguaizinhos ao Brasil que se vê em 2019, é corriqueira no filme a tecnologia futurista de identificação de gênero, estado civil e DNA. Detectores nas portas dos prédios são capazes de auferir se uma pessoa é casada ou divorciada, se uma mulher está grávida e até se o feto foi registrado. Mapas genéticos são lidos instantaneamente para atestar paternidade. O Brasil evangélico de Divino Amor, definitivamente, se preocupa muito com essas questões. E é compreensível: manter cada célula familiar sob controle e harmonia economiza esforços de repressão das massas. Se cada microcosmo estiver em ordem, todo o cosmo estará. 

O mundo aparentemente ordeiro de Joana, que só quer ter uma família feliz e ajudar outros casais a encontrarem a felicidade, começa a desmoronar quando, a despeito de o marido ser estéril, ela engravida. Os rituais de suingue do grupo de casais poderiam explicar a gravidez (aliás, como no livro e na série The Handmaid’s Tale, isso pode ser, embora não seja mencionado no filme, um mecanismo inventado pelo Estado para facilitar a reprodução nos casos de esterilidade de alguns maridos), mas a auferição do DNA dos homens com quem ela se envolveu lá também tem resultado negativo. 

É aqui que aparecem, com força, a crítica e a denúncia da distopia de Divino Amor. As personagens, em maior ou menor grau de cumplicidade com o Estado, dizem se pautar pelo amor e pela fé, mas sua fé simplesmente desaparece quando elas se veem diante de um milagre genuíno. 

Nem o marido nem o pastor, ambos homens que sempre disseram a Joana para ter fé, acreditam no que ela crê: que a criança em seu ventre é obra de Deus. Todos dizem aguardar o retorno do Messias, mas não O aceitam quando Ele é concebido. 

Joana, uma Virgem Maria (sem a parte da virgindade, claro) pós-moderna, é a única crente verdadeira em Divino Amor. O seu pecado, como ela mesma aventa mais de uma vez, foi amar demais. E não há lugar para o amor e nem para a fé radicais num lugar como aquele.

Divino Amor é um bom filme. Gostei da história, gostei da trilha sonora com aqueles deliciosos sintetizadores que me remetem aos anos 80, gostei da beleza das imagens, gostei da sutileza e elegância com que o roteiro critica a teocracia a partir de dentro, expondo suas contradições não pela negação, mas pela afirmação das coisas em que a fé oficial acredita. 

Vale a pena ver.