O Despertar da Força: Star Wars volta a ser Star Wars

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
21/12/2015

[TEXTO LIVRE DE SPOILERS]

Um dos pressupostos para falar de (e para entender) Star Wars é aceitar que Star Wars NÃO É ficção científica. Blade Runner é ficção científica. 2001 é ficção científica. Star Wars é uma saga de fantasia ambientada no espaço/franquia de produtos materiais e imateriais.

Por isso, o impacto visual e o apelo à emoção (e à compra de souvenires) importam muito mais que a verossimilhança, a profundidade e a acurácia científica. Li há muito tempo, não lembro onde, que George Lucas, ao ser entrevistado num talk show da TV americana, respondeu assim a uma pergunta sobre onde ficam os retrofoguetes do destroier imperial: “Não faço ideia; ele foi feito pra parecer legal.”THAT’s the point.

Star Wars também não é uma trama intricada sobre política interplanetária ou religião. É uma colcha de retalhos de referências, com pitadas do óbvio sentimento de que os totalitarismos são uma coisa ruim e um pouco de misticismo de comunidade hippie. OK, há, no Universo Expandido, todo um ecossistema de enredos paralelos e desenvolvimentos de personagens e conceitos, mas tudo isso é, em última análise, um esforço de fãs para dar estofo a filmes que são, em essência, muito simples.

Star Wars é uma fábula sobre a eterna guerra do bem contra o mal, sobre a esperança de que sempre é possível para o bem vencer essa guerra, por mais assombrosamente desigual que seja a correlação de forças – e é, principalmente, sobre sabres de luz cortando o ar com aquele som maravilhoso e sobre naves feitas para parecerem legais realmente sendo legais e explodindo coisas. Se você, assistindo a O Despertar da Força, sente os olhos lacrimejarem ao ver e ouvir a chegada providencial de uma esquadrilha de caças X-Wing, você sabe do que eu estou falando: Star Wars é a representação do que a gente queria ser e fazer quando era criança; é o tema das nossas melhores brincadeiras infantis, mas transposto para o contexto de uma galáxia muito, muito distante, há muito, muito tempo. Por isso o Episódio VII é um filme tão bom: Lawrence Kasdan e JJ Abrams resgataram a essência de Star Wars.

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Talvez isso tudo ajude também a entender por que os Episódios I, II e III (a trilogia prequela que conta a origem de Darth Vader) são tão inferiores à trilogia clássica E ao filme mais recente: George Lucas se pôs a tentar EXPLICAR biologicamente a Força e a tratar de acordos comerciais e golpes parlamentares e zzzzzzzZZZZZZZzzz. Isso funcionaria em um filme de ficção científica, mas não em Star Wars. A Força atua com muito mais fluidez quando aceitamos que ela é mistério.

É dos mistérios da Força que trata o Episódio VII: Luke Skywalker, o último mestre Jedi, está desaparecido e sua irmã, a General Leia Organa, lidera a Resistência contra a ditadura da Primeira Ordem, um regime totalitário que se ergueu dos escombros do Império para manter a galáxia dominada. No longínquo planeta Jakku, uma espécie de ferro-velho sideral, a jovem coletora de sucata Rey (a maravilhosa Daisy Ridley) se une ao droide BB-8 (um personagem metálico tão cativante quanto o mítico R2-D2) e ao stormtrooper desertor Finn (John Boyega) – e o trio acaba inserido nos caminhos da Força ao tentar encontrar a base da Resistência para entregar o mapa que permitirá localizar Skywalker.

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Lute como uma mulher

Essa jornada, feita a bordo da lendária nave Millenium Falcon e contando com a ajuda dos veteranos Han Solo e Chewbacca, é uma celebração da história de Star Wars. O malandro encarnado por Harrison Ford está afiadíssimo: voltou a ser o contrabandista das histórias originais e é responsável por alguns dos melhores momentos do filme (com certeza, pelos mais engraçados, embora o carisma robótico de BB-8 também arranque muitas risadas na sala de cinema).

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“Eu ainda te amo” / “Eu ainda sei”

Han é o primeiro a falar a Rey e Finn sobre a Força, mas é o vilão, Kylo Ren (Adam Driver), quem lhes faz a demonstração prática. Braço direito do Supremo Líder Snoke (o soberano da Primeira Ordem), Kylo é um comandante destemperado e irascível, que explora intempestivamente o Lado Negro e cultua a memória de Darth Vader. Se lhe faltam a segurança e a majestade do grande lorde de Sith da trilogia clássica, para mim é justamente esta a grandeza da personagem: O Despertar da Força mostra um vilão aprendiz, ainda no início da jornada e em plena vivência dos seus ritos de passagem (dos quais não falarei aqui para evitar spoilers). Kylo Ren tem muito a crescer nos próximos episódios.

Escrevi, lá no início, que Star Wars é uma colcha de retalhos. Em O Despertar da Força, JJ Abrams e Lawrence Kasdan costuraram belos e variados retalhos. Além das onipresentes referências à trilogia original (uma artimanha certeira para cativar os fãs, ressabiados desde o resultado abaixo das expectativas dos Episódios I, II e III), há a transposição de episódios dramáticos da história humana, como o uso de lança-chamas no campo de batalha (que nos remete ao horror da I Guerra Mundial) ou o raide de TIE-Fighters ao por do sol, o que lembra Apocalypse Now, o clássico de Francis Coppola sobre a Guerra do Vietnã. Também vemos a dinâmica do totalitarismo que elimina o indivíduo (para a Primeira Ordem, Finn é FN-2187, um homem sem nome, um número descartável) e cultua a disciplina marcial, e citações da estética nazista: além da grandiosidade da arquitetura e das colunas de stormtroopers perfilados para ouvir discursos, o capacete de Kylo Ren, visto por trás, é muito semelhante aos dos soldados alemães da I e da II Guerra, e nada disso é gratuito. Essas referências estão no filme por serem de fácil assimilação e identificação, e por se inserirem na luta do bem contra o mal que é a essência da saga.

No Episódio VII, os personagens veteranos fazem a ponte entre o período clássico e a contemporaneidade e guiam os novatos pela mão até o coração dos fãs. Abrams e Kasdan souberam conduzir essa transição com maestria, dizendo o que precisava ser dito e deixando subentendido o que fica melhor subentendido, e a emocionante cena final, de uma beleza ímpar, é plena de significados e resume em um frame tudo que aconteceu e o que acontecerá nos próximos filmes.

E eu, na minha poltrona, choro. Porque Star Wars é precisamente isso: é emocionar-se com coisas simples e belas.