No Limite do Amanhã: O Dia D da Marmota | Uísque Envelhecido 005

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
01/07/2019

[Este post faz parte da seção Uísque Envelhecido, em que os nossos garçons oferecem doses generosas de destilados culturais que já saíram há algum tempo das prateleiras de novidades, mas nem por isso deixarão de ser consumidos nesta taberna ]

O filme No Limite do Amanhã, de 2014, é um daqueles thrillers de sci-fi/ação da época em que virou moda o plot de pessoas usando exoesqueletos de combate em futuros distópicos. 

Mas a obra do diretor Doug Liman também pode ser vista como mais que isso. O enredo, sobre um soldado que retorna ao mesmo dia toda vez que é morto, nos permite experimentar com o protagonista, o major (rebaixado para recruta) William Cage, a ambivalente sensação de poder voltar no tempo para tentar fazer de novo, e melhor, algo que deu errado. 

Se você pudesse escolher um dia para viver indefinidamente, qual seria? 


Eu entenderia perfeitamente se a sua escolha fosse viver para sempre ao lado de Emily Blunt. Ou de Tom Cruise 

No caso do plot do filme (adaptado do mangá All You Need Is Kill, de Hiroshi Sakurazaka), o dia escolhido para o aparentemente eterno ciclo de reboots é o da invasão da Europa continental por tropas de uma força militar multinacional em guerra contra os “mímicos” ou “mimetizadores”, aliens muito peculiares e duros de matar. A opção dos roteiristas é inspirada no Dia D, o célebre desembarque aeronaval de tropas dos Aliados na Normandia em 1944, que abriu um novo front rumo à derrota dos nazistas. Aliás, o título do livro de Cornelius Ryan sobre a operação da Segunda Guerra é “O Mais Longo dos Dias”, uma coincidência que casa muito bem com a experiência da personagem de Tom Cruise no filme. 

Você certamente conhece o plot central de No Limite do Amanhã, que já foi usado antes e cujo principal representante no cinema é Feitiço do Tempo (Groundhog Day, de 1993), aquele filme em que o repórter de meteorologia vivido por Bill Murray fica preso no Dia da Marmota e acorda a cada manhã na mesma data e na mesma cidadezinha que odeia. 

O major rebaixado encarnado por Tom Cruise também calha de ficar preso numa situação que preferia evitar. Cage não é, originalmente, um soldado, mas um malandro oficial de relações públicas que acaba mandado para o front após tentar chantagear um general. É a clássica opção narrativa de colocar em cena um novato que terá de aprender junto com o espectador o que diabos está acontecendo.

A maldição (ou bênção) de Cage começa quando ele mata um tipo raro de alien (chamado de Alfa) e, impregnado do sangue alienígena, torna-se um interruptor vivo (ou melhor, morto) capaz de reiniciar aquele mesmo dia a cada vez que morre. O major acorda sempre no mesmo lugar, a base militar instalada no aeroporto Heathrow, e no mesmo dia: a véspera da invasão fadada ao fracasso. Revivendo sempre os mesmos acontecimentos, ele depara com a Sargento Rita Vrataski (Emily Blunt), a super soldado conhecida como “O Anjo de Verdun” por ter liderado uma vitória da humanidade sobre os aliens em uma batalha importante. Ela demonstra saber exatamente o que aconteceu com Cage, justamente porque ela também passou por situação semelhante. 

Lute ao lado do Anjo de Verdun

A partir daí, entendemos por que ela se tornou uma arma viva: não por ter habilidades sobre-humanas, mas por ter tido todo tempo do mundo para treinar e se aprimorar a cada volta ao mesmo ponto. Esta é uma das dimensões deliciosamente instigantes desse plot: a oportunidade de sempre começar de novo, treinar sempre uma vez mais até atingir a excelência, ou até testar outros rumos e abordagens quando as primeiras (digamos, as primeiras cem mil) tentativas não deram certo. Treinado por Rita com o recurso do tempo ilimitado para aprender, Cage converte-se de publicitário malandro em um super soldado capaz de ganhar, quase sozinho, uma guerra aparentemente impossível de vencer.

Uma tal situação também tem, é claro, aspectos bem irritantes e frustrantes. Além do tédio de passar sempre pela mesma situação, existe também a questão do apego. Para Cage, que segue com a memória dos acontecimentos vividos a cada restart no tempo, os elementos do seu pequeno mundo (Rita, os comandantes e companheiros de caserna, os aliens, o equipamento, os marcos geográficos) são velhos conhecidos, a respeito dos quais ele teve tempo de aprender quase tudo, mas para eles o major é só um novato recém conhecido. Como não se apaixonar por uma atraente companheira de batalha depois de lutar ao lado dela por incontáveis dias? Só que, para ela, você será sempre um cara que acabou de chegar, sem tempo de criar um vínculo duradouro. 

O ciclo de Sísifo do nosso protagonista acaba se encerrando pela mesma razão que antes tinha feito Rita deixar de ser um interruptor (uma prosaica transfusão de sangue tira dela e depois dele a capacidade de reiniciar o tempo) e assim os nossos heróis, já muito bem treinados e sabendo o que devem fazer, têm apenas uma chance para tentar vencer a guerra, sem possibilidade de reboot. 

No Limite do Amanhã, embora não seja um daqueles marcos históricos e divisores de águas do cinema, funciona muito bem como entretenimento despreocupado e vale a pena ser revisto. Não é um filme que eu escolheria rever para sempre se passasse pela mesma maldição de Cage, mas segue sendo uma escolha divertida para um daqueles domingos chuvosos e livres de compromissos.