Mais algumas coisas que tenho a dizer sobre Mad Max Fury Road

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
04/06/2015

Minha primeira impressão sobre Mad Max: Fury Road não foi lá muito boa (para ler minha anti-resenha escrita logo após sair do cinema, clique aqui). Afinal, sou um fã confesso do primeiro e do segundo filmes sobre a jornada rodoviária de Max Rockatansky pela Wasteland australiana e fui ver o novo trabalho de George Miller com uma determinada expectativa, que obviamente não condiz com a ideia que o próprio diretor quis desenvolver.

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Então, se você assistir ao filme esperando que aqueles elementos de desagregação social pela violência e falência do Estado sejam rediscutidos, num reboot da obra de 1979, é bem provável que se frustre. Mad Max: Fury Road é bem diferente do filme original e diferente até das duas sequências. Depois de muito matutar, pensei em mais algumas coisas a dizer sobre o filme, além da curta avaliação preliminar exposta no meu primeiro texto:

#1

Mad Max: Fury Road não é um filme de conteúdo; é um filme de ação. O importante são as imagens e os sons e não o texto. Ao compará-lo imediatamente com os filmes de 1979 e 1981, achei tudo uma grande baboseira. Mas, se o julgarmos comparando-o apenas com outros filmes de ação, trata-se de uma das grandes obras da última década.

 

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Se a simbologia é fundamental na obra de George Miller, o símbolo máximo deste novo filme não é nem mesmo a estrada, mas a perseguição. Uma estrada que não leva a lugar algum não tem outro papel na tela senão o de palco de uma caçada teatralizada e brutal, uma luta de morte por… por que mesmo?

Os guerreiros da Estrada da Fúria não lutam por combustível, não lutam por comida, não lutam por água, não lutam por liberdade. A perseguição que transcorre como ato único, dos primeiros aos últimos minutos de filme, é um fim em si mesmo. O clã guerreiro de Immortan Joe faz a guerra pela guerra, busca o poder pelo poder, por isso é inútil buscar explicações e porquês para a caçada.

#2

Tenho visto, nas timelines da vida, muita gente discutindo se o novo Mad Max é ou não feminista. Se aceitamos que a simbologia é importante na saga criada por Miller, é claro que neste filme a questão de gênero tem papel central. Não é por acaso que na nova Wasteland toda maldade e desolação são masculinas e toda esperança e fertilidade são femininas.

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O império de Immortan Joe é machista e patriarcal, num nível que beira a caricatura. Invertendo a ordem das colmeias, o vilão é um zangão-rei que fertiliza um harém de mulheres reduzidas a úteros ambulantes. No Estado dos adoradores de motores V-8, só há lugar para as mulheres como parideiras e vacas leiteiras.

A não ser pela Imperatriz Furiosa. A personagem de Charlize Theron, a verdadeira protagonista da história, desempenha melhor que os homens as funções que, no contexto do filme, são eminentemente masculinas: dirigir e lutar. Simbolicamente, a fuga de Furiosa com as parideiras de Immortan Joe, deixando na parede do harém a pichação “We are not things” (“Nós não somos objetos”), é uma negação dos papéis sociais impostos, é um brado pela emancipação. Um tomada de posição tão forte a ponto de ser o mote central do filme não pode estar lá por acaso.

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Claro que Mad Max: Fury Road não pretende se tornar referência acadêmica da discussão de gênero. Quem diz que não se trata de um “filme feminista” pode ter razão, mas não dá para negar a importância dessa perspectiva num filme em que a dicotomia homem/mulher beira o maniqueísmo.

Uma das marcas fundamentais dos (dois) primeiros filmes da saga era a sintonia com a época em que foram filmados. Julgando por esse prisma, olhemos em volta: nosso mundo, a grosso modo, é governado quase exclusivamente por homens e não estamos fazendo um trabalho nada bom. A ideia de que a Terra virará uma Wasteland ainda é plausível mesmo após o fim da Guerra Fria e mesmo como todo o avanço tecnológico que tivemos desde o primeiro Mad Max. Resumindo: as sociedades dominadas por homens estão destruindo o planeta. Talvez a ascensão de Furiosa ao poder faça brotar algumas flores no deserto da Wasteland: este parece ser o recado principal do novo filme de Miller.

(Tenho lido manifestações de feministas que afirmam que o feminismo não está representado no filme porque a Charlize Theron é uma das mulheres mais lindas do mundo e as imperatrizes grávidas parecem modelos da Victoria’s Secret e seguem padrões impostos de beleza etc etc etc. Como eu disse, é um filme de ação e não um manifesto de ONG feminista. E até essa opção estética pode estar lá como alegoria, pois as belas reprodutoras eram a escolha pessoal de Immortan Joe. Ou seja, elas seguem esse padrão estético porque essa é a estética que o vilão define e aprecia.)

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#3

Max, como vimos acima, não é o protagonista do seu próprio filme. Ele não é nem sequer o super motorista e super lutador dos filmes anteriores. É capturado facilmente pelos guerreiros de Immortan Joe, precisa dar a arma a Furiosa para que o tiro salvador atinja o alvo, não consegue dirigir o gigantesco caminhão-tanque com a mesma habilidade da imperatriz.

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mad-max-estrada-de-fúria-112A única cena em que Max lembra o macho-alfa dos filmes originais ocorre fora de quadro: o momento quase caricato em que ele parte desarmado para enfrentar um tanque de guerra e o vence em poucos instantes aparece do ponto de vista das mulheres, para as quais o duelo é apenas uma operação para desatolar o seu caminhão. Eis no que se tornou o super Max Rockatansky: uma bolsa de sangue ambulante e trocador de pneus para uma motorista mulher. Isso também não é gratuito; Miller, deliberadamente e de modo cavalheiresco, tirou o protagonismo e os “super poderes” do seu personagem, numa prova de que continua sintonizado ao seu tempo.

Atormentado por fantasmas das pessoas que deixou de ajudar na Wasteland, Max tem a chance de se redimir ao se anular e se rebaixar ao papel de coadjuvante. Ajudar Furiosa e suas imperatrizes em fuga é a melhor maneira de ser herói. Isso, de certo modo, é coerente com o restante da saga.

Com uma história marcada pela tragédia e pela perda, Max adotou a Wasteland (que, aliás, não fica mais na Austrália) como lar e o vazio e a aridez geográficas condizem com o vazio e a aridez do seu coração. Ao deixar a glória para Furiosa e desaparecer em meio à multidão anônima, ele segue sua triste jornada de autoflagelação e luto – porque não há outra explicação para que ele lute tanto pela própria vida senão a necessidade de sofrer para se penitenciar. Se o próprio Miller compara Mad Max a um faroeste futurista, nada mais natural que o abnegado e solitário cowboy encerre o filme rumando sozinho em direção ao Grande Vazio, deixando que a cidade recém salva cuide do seu próprio futuro.