Mad Max: a distopia punk de George Miller

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
29/04/2015

poster-mad-maxEstamos acostumados a relacionar a perambulação do ex-policial e justiceiro Max Rockatansky pelo deserto australiano à escassez de combustível no futuro próximo – a imagem que representa a saga é a de bandoleiros selvagens dirigindo carros modificados e matando ou morrendo por um litro de gasolina. Mas o filme original, Mad Max, de 1979, não usa essa ideia como mote principal.

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Mad Max é mais uma obra sobre costumes e a desagregação social que sobre uma crise energética, embora a dificuldade crescente em obter combustível seja levemente sugerida – mas isso, no contexto do primeiro filme, é praticamente uma consequência natural do esfarelamento do Estado australiano.

A sequência inicial mostra uma perseguição rodoviária a um desordeiro que roubou um carro  da polícia. É aí que descobrimos que a polícia desse futuro (que está apenas “alguns anos” a nossa frente, como diz o texto de abertura) torna-se cada vez mais brutal para fazer frente à violência das gangues. Descobrimos também que o protagonista, o patrulheiro Max, vivido pelo então desconhecido Mel Gibson, é um exímio motorista que combate o crime com frieza e meticulosidade, em contraponto à passionalidade atabalhoada de seus companheiros.

Com a morte do líder marginal Night Rider nos primeiros minutos do filme, os policiais da cidadezinha perdida às margens do deserto despertam a sede de vingança da gangue de motoqueiros do contraventor. E o embate entre essa alcateia punk e a sociedade estabelecida (um confronto que acaba atingindo mortalmente a família de Max e enlouquecendo o protagonista) é o fio condutor.

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O futuro é punk

Mad Max é uma obra sintonizada com o seu tempo. Com a morte (ou, vá lá, o coma profundo) das grandes utopias, o mundo vivia uma grande mudança nos costumes e uma crise nos valores que eram antes dominantes. O movimento punk ganhava força mundo afora e representava uma ruptura com toda forma de autoridade e legitimidade. A estética e a ideologia punk permeiam a obra de George Miller.

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Responda rápido: quem é o mocinho?

É este espírito de afronta e rebeldia raivosa das novas tribos urbanas que motiva os bandidos mostrados no filme. A gangue de motoqueiros liderada pelo petulante e assustador Toecutter não se trata exatamente de uma quadrilha de criminosos convencionais, mas de nômades que romperam com o Estado e cometem crimes principalmente para afirmar e sustentar o estilo de vida que adotaram.

Num dos pontos de virada, quando a gangue tem a opção de seguir viagem pela estrada ou ficar e enfrentar o poder constituído, Toecutter, depois de ser atiçado pelo assecla Bubba Zanetti, que faz as vezes de ideólogo do bando, diz aos companheiros: “Os Bronzes (é como eles chamam os policiais) tiram o nosso orgulho!”, o que é a senha para que continue a orgia de ataques contra os símbolos da lei e da ordem na sociedade agonizante.

Na distopia de Miller, a linha que divide bandidos e mocinhos é muito tênue. Os bandoleiros de Toecutter, ao mesmo tempo em que aterrorizam alguns dos moradores da cidade, também despertam o fascínio de vários outros. E o que diferencia os defensores da lei dos bandidos que eles perseguem? O próprio Max, num momento de autocrítica, reconhece que está sendo brutalizado pelo trabalho na polícia e tenta se demitir para preservar o que lhe resta de humanidade.

Ele bem que tenta viver normalmente e tirar férias com a mulher e o filho, mas a viagem idílica é mortalmente interrompida pelos motoqueiros vingativos, num recado claro: este é um mundo cão. Max, que já havia perdido o seu grande amigo e parceiro Goose num atentado do bando de Toecutter (Goose não morre, mas é transformado num pedaço de carne queimada), vê na morte da família o seu próprio ponto de ruptura com a sociedade, com a lei e a ordem. O policial que se mantinha frio e impassível enquanto os parceiros se desesperavam se converte num justiceiro metódico e determinado, um anjo caído que forma, com seu carro V8, um único ente, um centauro punk que se nutre de sangue e gasolina.

Simbologia

mad max 1979 estrada anarquia rodovia

Mad Max é um filme alegórico, repleto de símbolos que representam uma sociedade em crise. A primeira imagem que aparece é a da sede da polícia, com o letreiro HALLS OF JUSTICE danificado, dando a entender que há algo errado com a lei e a ordem naquele lugar. Lá dentro, o som onipresente é o do rádio que transmite, infinitamente, a leitura de diretrizes de conduta, feita por uma voz feminina monótona e sem expressividade. É um reflexo da degeneração dos costumes de um Estado que precisa afirmar as suas próprias noções de certo e errado de cima para baixo, pela repetição.

Numa cena-chave para entender o que está acontecendo, o jovem Johnny-boy, um dos membros do bando de Toecutter, preso pelos patrulheiros após um crime, é solto por advogados caricatos e estilizados que usam a lei para defender um fora da lei – o que revolta os policiais.

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Os patrulheiros, que se vestem como punks, à semelhança dos arruaceiros que perseguem, pilotam carros modificados na sua própria oficina (“Faça você mesmo”, diz o lema punk) e dirigem por uma estrada batizada de “Rodovia da Anarquia”, como diz uma placa.

A estrada, aliás, é o símbolo maior do filme. Numa comunidade isolada no meio do nada, a estrada é o elo com a civilização, a artéria vital, a via para o abastecimento, para o avanço, e também o único meio possível de fuga. Em Mad Max, é na estrada que os bandidos cometem seus crimes e é lá que a polícia tenta prendê-los ou matá-los. É uma estrada que não sabemos onde começa, mas sabemos onde termina: na Wasteland, a terra sem lei onde o próprio Estado reconhece, numa placa, não ter mais poderes. A estrada representa o caminho que seguimos e o rumo que tomaremos como sociedade.

O final deixa claro que a Wasteland selvagem e brutal acabará engolindo o cadáver do Estado. E o recado é: em um mundo cão, só sobrevive quem aprende a morder.