Mad Max 2: a sequência que não é bem uma sequência

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
13/05/2015

Em 1981, dois anos depois de lançar Mad Max, sua distopia punk, George Miller apresentou um segundo capítulo da saga do ex-policial Max Rockatansky pela Wasteland australiana. O belíssimo filme, com o título The Road Warrior, conta uma história que se passa alguns anos depois do primeiro e pode ser chamado de sequência, embora seja quase um reboot, uma releitura do personagem em um contexto ligeiramente diverso.

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Enquanto o primeiro filme trata principalmente de desagregação social pela violência, o segundo é uma distopia pós-apocalíptica sobre um mundo paralisado pela guerra e pelo desabastecimento de combustíveis.

Na longa e desnecessária abertura, um narrador nos explica, numa entonação que exala didatismo e pieguice, que um dia “duas poderosas tribos” entraram em guerra e destruíram os campos de petróleo, mergulhando o mundo numa torrente de violência, canibalismo e anarquia. É uma tentativa de inserir os filmes no contexto da Guerra Fria, quando o medo de uma guerra nuclear terminal entre os Estados Unidos e a União Soviética era um dos temas fundamentais da geopolítica global. Ao fazer isso, Miller tenta dar verossimilhança e proximidade aos seus enredos, com a ideia de “podia ser com você”.

Mas o maior pecado dessa narrativa introdutória é tentar relacionar o contexto do primeiro filme à guerra e ao posterior desabastecimento energético. É uma maneira, tosca, de tentar amarrar as duas histórias e sustentar que o segundo filme se trata de uma sequência no sentido estrito do termo.

Essa introdução inteira não apenas é desnecessária como também prejudicial ao filme. Se a narração fosse simplesmente cortada, The Road Warrior ficaria melhor. Primeiro, porque os roteiristas e o diretor viajaram (no mau sentido). A sequência inicial é visual e textualmente ruim. Segundo, porque quem viu o primeiro filme já sabe quem é Max, qual é a sua bagagem histórica e sentimental e, para quem não viu, a explicação não faz falta. É possível entender que o protagonista é um ex-policial com uma vida pessoal marcada pela tragédia e pela perda, mesmo sem a narração de abertura.

Ocorre que The Road Warrior não precisa necessariamente ser compreendido como uma continuação da jornada de Max. Pode muito bem ser um reboot, uma extrapolação do contexto original em outro universo.

Não que a história não funcione como sequência. No final do filme de 1979, Max e seu carro envenenado mergulham na Wasteland, a Zona Proibida onde o Estado desistiu de tentar manter a ordem, enquanto o próprio Estado estava em vias de se esfarelar.

Alguns anos depois, não há mais Estado, nem contrato social, nem outra lei que não seja a do mais forte. Acompanhado por seu cão, Max passa os dias a digladiar com bandoleiros pela própria vida e por um tanque de gasolina. Os habitantes da Wasteland são como chacais que se alimentam da carcaça do mundo morto. A escolha pela ambientação no deserto australiano é uma alegoria para o que o mundo se tornou nesse futuro pessimista: um lugar estéril e sem vida.

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Neste deserto, Max encontra aquele que se tornará, a contragosto, seu novo parceiro: o Capitão Gyro, um novo tipo de sobrevivente adaptado às novas condições do mundo. A dupla acabará se envolvendo no conflito entre duas tentativas de reorganização coletiva: de um lado, o oásis representado por uma bomba de combustível fortificada e seus defensores e, de outro, o bando de selvagens comandado pelo misterioso Hummungus, um líder cruel e messiânico que tenta se apropriar das grandes reservas de combustível da bomba.

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Max se oferece para ajudar o grupo de mocinhos a fugir para o norte levando o combustível em um enorme caminhão-tanque. E é esse o clímax e a alegoria mais representativa do filme: a perseguição do tanque pela frota de carros modificados de Hummungus resume o que se tornou a vida na Wasteland (e, a julgar pela narração inicial, no resto do mundo): uma caçada implacável, uma luta de morte pelos despojos da civilização que morreu.

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No final, nosso amigo narrador reaparece e se apresenta: ele é a criança meio selvagem (creditada como “The Feral Kid”) que fazia parte do grupo ajudado por Max e afirma que conseguiu, com seus amigos, chegar ao destino e fundar “A Grande Tribo do Norte”, da qual ele mesmo acabou tornando-se líder. É a reagregação social, uma tentativa de reconstrução da sociedade perdida.

Max tem a chance de se juntar à Tribo, mas prefere ficar na estrada. A estrada sem lei que não leva a lugar algum e que representa a ruptura com a civilização. É a característica do personagem, construída no primeiro filme: Max deixou de pertencer ao mundo quando perdeu a família, os amigos e a fé no contrato social. A Wasteland é o seu mundo, o seu lar, a tradução geográfica do vazio e da desolação da sua própria vida.