Interestelar: a jornada espacial de Christopher Nolan

Gustavo Kaspary
Por Gustavo Kaspary
08/04/2015

88A Terra enfrenta tempos de crise. Cidades inteiras são tomadas pela poeira. O oxigênio, já escasso, se mistura a outros gases atmosféricos e vai desaparecendo aos poucos. Até o milho, alimento até então capaz de sobreviver às condições impostas pelo ambiente estéril, se encaminha para a extinção. Nesse cenário mórbido, conhecemos Cooper (Matthew McConaughey), um ex-astronauta que, por imposições distópicas, trocou as viagens espaciais pelo trabalho pesado da plantação. Mas a rotina familiar de Cooper, ao lado do sogro e dos dois filhos, é interrompida quando ele encontra a última base ativa da Nasa. O local se mantém em segredo para evitar possíveis revoltas populares. Afinal, quem concordaria em manter aquela estrutura em funcionamento quando setores vitais para a população carecem de recursos?

É assim que somos apresentados ao enredo de Interestelar, a última empreitada de Christopher Nolan (Batman – O Cavaleiro das Trevas, Amnésia, A Origem), que conta a história de um astronauta aposentado que arrisca tudo na esperança de garantir o futuro da família e, por tabela, de toda a raça humana.

Antes de mais nada, falemos de aspectos técnicos. Os 30 minutos iniciais que se passam naquele destroçado planeta Terra amplificam o impacto ocular que a primeira cena no espaço causa. As belezas além-terra estão pilarizadas por efeitos especiais competentes, para não dizer impecáveis, e uma fotografia conceitual e bela.

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Menos eficiente, a trilha musical compromete algumas cenas. O silêncio do espaço não deveria ter sido perturbado pela sonoridade que preenche as linhas de áudio do filme — faltou um pouco da maestria sonora que encontramos em Gravidade (2013), de Cuarón. Entretanto, nada que prejudique um longa tão preciso do ponto de vista visual, algo que se comprova, por exemplo, na construção do buraco de minhoca- a anomalia é perfeitamente representada, estética e cientificamente falando.

E é cientificamente falando que o filme se engrandece. Trata-se de uma trama fortemente embasada, com respaldo de teóricos renomados. Isso graças a ajuda do físico norte-americano Kip Thorne, convocado por Nolan para deixar a megaprodução o mais fiel possível às leis que regem o universo e tudo mais. Do ponto de vista didático, deu certo: professores poderiam substituir uma aula inteira sobre a Teoria da Relatividade por esse ou aquele trecho de Interestelar. Por outro lado, o tom exageradamente explicativo de alguns diálogos empobrece o roteiro. De novo, nada que não possamos relevar — até porque, de outra maneira, boa parte do público não assimilaria determinadas situações.

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Interestelar flerta com questões filosóficas, é claro, mas sem aprofundar-se demais. Lembremos que trata-se de um filme do Nolan, em que o sentimento prevalecente é a tensão do clímax, a expectativa provocada pela reação em cadeia produzida por escolhas diversas de personagens bem construídos. Cabe aqui uma menção ao desempenho esforçado (mais uma vez) de Matthew McConaughey, que conseguiu dar intensidade ao personagem principal.

A comparação com 2001, de Kubrick, foi inevitável para mim, embora injusta para com Nolan. Como não lembrar de HAL quando TARS entra em cena? Como não lembrar de Dave quando o reflexo de luz nada despretensioso toma lugar no capacete de Cooper? São referências óbvias, homenagens, não mais que isso. As semelhanças param por qui. Enquanto a Odisséia se concentra nos grandes mistérios não só da humanidade, mas de todo o espaço, Interestelar se inclina a uma abordagem humanizada, paternal, mesmo que não abra mão de ornamentar de aventura os caminhos e os destinos extraterrestres.

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Entre erros e acertos, Interestelar consegue alcançar seu objetivo. Mais acertos do que erros, vale ressaltar. As três horas passam rápido nesse filme (relatividade temporal aplicada, eu diria). Porém, as incitações à reflexão seguirão durante dias, dependendo do grau de imersão do espectador. Em contrapartida, Nolan, que pretendia fazer com que o filme trouxesse novamente os enigmas espaciais para as salas de discussão, acaba por distribuir todas as respostas antes do acender das luzes.

Cotação:

Quatro-Dinamites