Homem-Aranha: No Aranhaverso | O melhor dos filmes possíveis

Senhor D
Por Senhor D
16/01/2019

A definição de Gottfried Wilhelm Leibniz para o que venha a ser uma possibilidade dá conta de que tudo que é possível é verdadeiro em pelo menos um mundo possível. Mundo possível este que, segundo o filósofo alemão, pode ser o nosso ou qualquer outro ao qual desconhecemos e não temos acesso, mas que, assim como o nosso, seja necessariamente possível. Um mundo possível, nesse sentido, é um modo como a realidade poderia ser ou é, mas que não necessariamente é ou será. 

Necessariamente é ou será. O que isso quer dizer? O que determina o que é necessário? A metafísica e a lógica têm um entendimento em consenso sobre essa questão: “necessário” se refere a uma proposição que é verdadeira em todos os mundos possíveis. Do período escolástico (Idade Média, entre os séculos IX e XVI), surgiu uma conceituação um pouco diferente, que compreende a necessidade como uma verdade que não só é possível como sua impossibilidade resultaria em contradição e/ou paradoxo. Em outras palavras: necessária é a realidade cuja impossibilidade seja impossível. 

Nosso mundo não parece ser necessário. Nossa realidade, muito menos. Não é necessário que você esteja lendo essas linhas. Mas se você está fazendo isso, é porque isso é uma possibilidade (sua vontade, intenção e atitude são totalmente secundárias, nesse caso). Mas você poderia não estar fazendo isso agora. Assim, podemos dizer que há um mundo possível em que você não está lendo este texto — lembrando que, afinal, mundos possíveis nada mais são do que formas como a realidade poderia ser, mas não necessariamente é. A questão que se impõe, portanto, é ontológica: o que significa dizer que mundos possíveis (ou possibilidades) existem?

A forma como a filosofia trata da questão dos mundos possíveis é analítica e está emaranhada em toda ordem de abstrações linguísticas: via de regra, não são requisitadas demonstrações empíricas aos filósofos (por isso são apenas filósofos, e nunca cientistas). A física (que um dia, antes de desmamar e alçar voos próprios, foi chamada de filosofia da natureza) também trabalha com a ideia de múltiplos mundos. Para os físicos, esse conjunto hipotético de mundos possíveis — ou universos possíveis — é delimitado dentro do conceito de multiverso. O multiverso, sob um olhar teórico da física, contemplaria toda a existência, todo o espaço e tempo e energia e leis. Tudo. Mas, assim como os mundos possíveis leibnizianos, esses mundos possíveis são desconhecidos e inacessíveis — ainda. 

Mas, se seguirmos os passos conceituais que nos trouxeram até este parágrafo, e se, desse modo, existe um mundo possível em que alguém consegue acessar outros mundos possíveis que são, por sua vez, possivelmente acessíveis, parece verdadeiro dizer, tanto física quanto filosoficamente, que esse mundo e esses outros EXISTEM.

Porém, infelizmente, parece que isso não é o caso no nosso universo. Por outro lado, é exatamente o que ocorre no universo de Miles Morales, com uma pequena diferenciação conceitual: não se trata de um multiverso, mas sim de um Aranhaverso.

A ideia de multiverso é muito bem-quista na ficção científica (de um modo geral) e nos quadrinhos (de maneira mais específica). Ainda que os aspectos teóricos mais profundos dessa teoria sejam apenas meramente pincelados, o pano de fundo cai bem para esse gênero, além de contribuir exponencialmente para a renovação das narrativas de super-heróis mais tradicionais da nona arte. Esses (também chamados) universos paralelos se proliferam aos montes nas HQs, e com as sagas do Homem-Aranha não foi diferente. O fato novo, porém, é a mais recente versão — ou versões — do aracnídeo no cinema. Versão – ou versões — que traz uma identidade — ou várias identidades — nova e especialmente bem explorada do universo — ou multiverso — do amigo da vizinhança – ou amigo(s) ou amiga(s) da(s) vizinhança(s).

Não sei se alguém ainda diz que desenho é coisa de criança (vai saber, com tantos mundos possíveis por aí!). De todo modo, vale ressaltar: Homem-Aranha: No Aranhaverso (2019) não é coisa para criança. Ou, melhor: não é coisa só para criança. Há uma mescla saliente entre o cartunesco e o complexo, entre o humor escrachado e o drama. Isso tudo, quase que na medida certa (talvez um pouco cartunesco demais), faz com que (com o perdão do lugar comum) seja um filme para toda a família. Ainda assim, fica evidente que grande parte do longa foi pensada com a mira apontada aos mais iniciados em tramas teiosas — tanto aos fãs dos quadrinhos, bombardeados por pilhas de referências, quanto aos mais familiarizados com os filmes de Sam Raimi, que viram (para seu deleite – ou não) a trilogia dos anos 2000 ser canonizada no e pelo Aranhaverso.

Aviso número 1: há de haver controvérsias sobre o que vem a seguir.


 Homem-Aranha é o maior personagem da Marvel. Trata-se de um ícone maior até que Capitão América ou qualquer um dos X-Men. Por ser tão grande, o personagem criado por Stan Lee e Steve Ditko sempre se converte em empreitada perigosa para quem quer que se aventure a fazer adaptações ou reformulações em seu universo — o que não impede ou impediu a multiplicação de todo tipo de absurdo contra o Cabeça de Teia (alguns desses absurdos referenciados criticamente com justiça no Aranhaverso). Mas Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, o trio que comanda a direção do longa, não se apequenaram diante da tarefa de deixar o velho e amado Peter Parker de lado para alavancar o jovem e carismático Miles Morales, o novo Homem-Aranha que surge no mesmo mundo possível em que vive Peter Parker. 

No início, Morales (um adolescente negro com ascendência hispânica) é só alguém que você quer conhecer melhor. Depois, com o passar das cenas, se torna alguém para quem você vai torcer e com quem vai se importar — êxito muito parecido ao que o personagem criado originalmente por Michael Bendis (inspirado em Barack Obama e Donald Glover) já havia alcançado nos quadrinhos, vale ressaltar.

Apesar de toda acentuação de diferenças entre Morales e os Parkers que já conhecemos (diferenças que vão desde as origens até as motivações), talvez sejam as semelhanças entre eles, Morales e Parker, que devam ser destacadas. Isso porque há um modus operandi, um código de conduta que pauta — quase que invariavelmente — os diversos Homens-Aranhas que já testemunhamos desde a estreia em 1962. E são esses fatores que carregam com mais força uma das mensagens que Stan Lee sempre disseminou (e que ganhou destaque especial em Aranhaverso): a de que qualquer um de nós pode fazer a diferença para um mundo melhor. Qualquer um de nós pode vestir a máscara (seja você Peter Parker, Miles Morales, Gwen Stacy, um porco animado, um herói noir ou um personagem de anime).

Para além dos acertos de roteiro e da direção, vale a nota entusiasmada: que animação bem feita! que cores!, que movimentos!, que experiência!

E agora, aviso número 2: há de haver controvérsias sobre o que vem a seguir.  

Homem-Aranha: No Aranheverso é, se não o maior, um dos maiores (no sentido de grandioso) filmes sobre o Aracnídeo já feitos. Será, sem sombra de dúvidas, uma das melhores animações do ano — e olha que estamos apenas em janeiro –, de concorrer a Oscar e tudo mais. É um filme que preza pela essência do cânone, mas que também sabe inovar. Emociona e diverte na medida certa. E o melhor de tudo sobre Homem-Aranha: No Aranhaverso é que ele pertence ao melhor dos mundos possíveis: o nosso.