Europa Report: sci-fi em alto estilo e baixo custo

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
10/04/2015

europa-report-cartazNão se pode dizer que o filme Europa Report (que, aqui no Brasil, recebeu o título PAVOROSO “Viagem à lua de Júpiter”) tenha causado estardalhaço. A obra dirigida por Sebastián Cordero foi lançada em 2013 e eu só a descobri por acaso, enquanto zapeava pelas sugestões do Netflix, em 2015. Foi uma excelente surpresa.

Trata-se de um filme de ficção científica de baixo orçamento (custou menos de R$ 10 milhões, contra R$ 165 milhões de Interestelar, por exemplo) e sem estrelas no elenco, mas, mesmo assim, o resultado é de encher os olhos.

O estilo escolhido, o de mockumentary (aqueles filmes de ficção feitos para parecer um documentário), pode parecer manjado, mas foi bem explorado por Cordero e pelo roteirista Philip Gelatt, soando verossímil.

A história da missão privada Europa One até uma das principais luas de Júpiter é contada de modo não exatamente linear, baseando-se em depoimentos da equipe de Terra, da astronauta Rosa Dasque (vivida por Anamaria Marinca) e de câmeras da nave e dos trajes dos tripulantes.

A jornada da Europa One não é exatamente um passeio. Descobrimos, logo no início do filme, que algo saiu muito errado. Meses depois da partida, os efeitos de uma tempestade solar cortam a comunicação da nave com a Terra e um dos tripulantes, o engenheiro James Corrigan (Sharlto Copley), acaba morrendo durante uma atividade extra-veicular. A tripulação, oprimida pelo pesar, decide cumprir o cronograma da missão enquanto na Terra a nave é dada como perdida.

Europa é um dos lugares mais promissores do Sistema Solar para a existência de vida. Trata-se de um satélite coberto por uma espessa camada de gelo. Há mais água lá do que em toda a Terra e acredita-se que, nas profundezas daquela colossal geleira, o elemento mais precioso para a vida (pelo menos, para o tipo de vida que temos na Terra) existe na forma líquida. A missão Europa One tem como objetivo precisamente encontrar vida naquela lua distante.

spoiler-alerta

O pouso em Europa é razoavelmente bem sucedido, mas as coisas começam a dar muito errado. Misteriosos picos de radiação acompanhados de uma luz azul e a desconfiança de que uma poderosa forma de vida não está nada a fim de receber os visitantes com hospitalidade gera um clima de suspense.

Tripulantes começam a morrer na tentativa de descobrir o que está acontecendo. Um dos pontos mais dramáticos é quando a Dra. Katya Petrovna (Karolina Wydra) caminha pelo gelo de Europa e é tragada para as profundezas em meio à bruxuleante e radioativa luz azulada.

Com a nave danificada, os sobreviventes decidem se sacrificar pela ciência e, quando o fim está próximo, o engenheiro Andrei Blok (Michael Nyqvist) consegue consertar o sistema de comunicação com a Terra. Está justificada a opção pelo estilo mockumentary e entendemos como a corporação que patrocinou a missão recebeu os vídeos do documentário.

No momento derradeiro, enquanto a nave afunda na água sob a camada de gelo rompida, a piloto Rosa, a última sobrevivente, tem a sacada que assombra a equipe de Terra: ela abre a escotilha e permite que, junto com a água que invade a cabine, entre também a assustadora criatura alienígena que se mostra, enfim, e por um breve instante, para a câmera. É uma das principais descobertas científicas da história da humanidade – e custou a vida de seis pessoas.

Europa Report é um belo filme de ficção científica, e mostra que é possível aventurar-se pelo gênero sem gastar dezenas de milhões de dólares. Ao apostar numa missão marcada desde o início pela tragédia, o roteiro consegue dar um tom de tensão e suspense. A opção pela lua de Júpiter, um provável destino da humanidade no próximo século, confere verossimilhança e proximidade, que fica ainda mais crível com a opção pelo estilo documentário.

E os ataques da misteriosa criatura bioluminescente reforçam a noção do perigo que será viajar para lugares com vocação para a vida. Dada a nossa própria experiência, sabemos que criaturas vivas podem ser bastante hostis a outros seres.

Cotação:

Três-Dinamites