Duas leituras de A Chegada

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
27/02/2017

Eu queria muito ter visto A Chegada (Arrival) no cinema, mas não pude fazê-lo por motivo de força maior (e põe “maior” nisso): o filme de Denis Villeneuve esteve em cartaz justo no período em que meu filho nasceu e eu mergulhei de cabeça nas rotinas de pai de primeira viagem, o que consumia e ainda consome quase todo o meu tempo.

Só ontem consegui assistir –  por coincidência, no exato dia em que a obra concorria ao Oscar em oito categorias, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado; acabou levando o prêmio de Melhor Edição de Som. Enquanto a cerimônia rolava em Los Angeles, eu via o filme em casa.

LER PRIMEIRO O LIVRO OU VER PRIMEIRO O FILME?

Assistir a um filme adaptado de uma peça literária (neste caso, do conto História da Sua Vida, de Ted Chiang) é, para mim, uma faca de dois gumes. Geralmente, prefiro ler o livro antes, para que o filme não estrague minha experiência posterior de leitura, como quando li A Caçada ao Outubro Vermelho enxergando Sean Connery e/ou Alec Baldwin em cada página. Ler uma história de ficção é uma oportunidade de construir mentalmente cenários e personagens – e prefiro fazer isso pessoalmente, sem passar pela mediação de diretores de arte e de elenco de Hollywood.

Mas isso também tem uma dimensão negativa: a leitura preliminar da história me deixa com uma determinada expectativa em relação ao filme, que quase sempre fica aquém do que eu esperava. Poucas são as adaptações cinematográficas que igualam a grandiosidade e a complexidade da peça literária que a inspirou (pressupondo, claro, que se trate de um escrito grandioso e complexo), embora algumas até a superem, como é o caso de Blade Runner, O Poderoso Chefão e O Silêncio dos Inocentes.

Como li História da Sua Vida antes de ver A Chegada, acho necessário fazer duas leituras do filme: como obra cinematográfica e como adaptação do conto de Ted Chiang.

A CHEGADA COMO FILME

No período em que A Chegada esteve em cartaz, li nas redes sociais (com algum cuidado, para evitar me defrontar com algum spoiler) generosos elogios de amigos ao filme. Eles estavam cobertos de razão: Denis Villeneuve conseguiu criar, talvez, a grande obra cinematográfica de ficção científica da década.

a chegada escrita heptapode

Enlatados culturais sobre invasões alienígenas são lançados por Hollywood aos borbotões. O plot do filme (naves extraterrestres que aparecem em diferentes pontos do nosso planeta sem que haja, a princípio, explicação sobre o porquê) é batido e costuma render thrillers em que a humanidade se une para dar uma boa surra nos ETs e mostrar que somos uns filhos da puta duros de exterminar.

A Chegada e o conto que o inspirou vão no sentido oposto. Trata-se de uma história sobre a construção de pontes e não sobre a aniquilação do que não se conhece. Um título mais apropriado, se os produtores quisessem dar outro nome sem precisarem usar o do conto de Chiang, poderia ser A Conversação, pois é justamente disso que o filme trata: da construção do diálogo entre diferentes (sei que já existe um filme chamado A Conversação, mas isso não seria problema, pois também já existe um filme anterior chamado A Chegada).

Os heróis da história, em vez de soldados, são a linguista Louise (Amy Adams) e o físico teórico Ian (Jeremy Renner) – e até o militar responsável pelo complexo onde eles trabalham (o Coronel Weber, vivido por Forest Whitaker) é um moderado que tenta evitar uma solução litigiosa.

A empreitada que o governo dá a Louise e Ian é monumental: criar bases para a compreender os objetivos dos “heptápodes”, nome dado aos visitantes, que se assemelham a enormes polvos. A linguista cumpre as ordens, pero no mucho. Ela busca compreensão mútua e não apenas a tradução das palavras dos seus interlocutores. Ao tentar construir uma relação produtiva de diálogo com os heptápodes, Louise mostra diversas vezes, aos seus superiores e a nós, que compreender genuinamente o Outro exige mais do que apenas o instrumental técnico: é preciso estabelecer uma relação de confiança e empatia. É preciso desnudar-se de camadas de interesses ocultos e preconceitos que poderiam dificultar o entendimento – e este conceito é demonstrado pela protagonista de forma literal, na cena em que ela despe o traje de proteção e aceita correr o risco de contaminação para otimizar a conversa com os aliens.

a chegada heptapode

Essa disposição para o diálogo franco e para a compreensão e aceitação acaba sendo a chave, ao longo de todo o filme, para a resolução dos problemas. Como disse meu amigo André Ribeiro, o grande mérito de A Chegada é romper com a lógica de “atire primeiro e pergunte depois”, que parece dominar esse gênero cinematográfico.

Ainda que se restringisse apenas a esse ponto da construção de pontes de diálogo entre diferentes, o filme de Villeneuve já estaria muito acima da média, mas A Chegada, como é próprio das obras que se tornam clássicos, tem ainda mais camadas de sentidos e relações.

spoiler-alerta

A história é contada, assim como no conto de Ted Chiang, em planos distintos: a narrativa da missão de Louise e Ian de conversar com os heptápodes é intercalada com cenas que perpassam diversas etapas da relação da linguista com Hannah, sua filha ainda não nascida. Esses planos se interpenetram e a visão do futuro ajuda Louise a entender o presente e solucionar o quebra-cabeças.

Esses poderes sensitivos são resultado do contato com a língua escrita dos heptápodes, descrita como “semasiográfica” (que transmite significado, sem ser uma tradução gráfica da fala), que acabou moldando a mente da tradutora à semelhança das mentes dos aliens: para eles, a percepção do tempo não é linear e sequencial como a nossa, de sorte que passado, presente e futuro são simultâneos.

À medida que se torna fluente na língua heptápode, Louise descobre mais sobre Hannah e sobre o seu próprio futuro. A menina, fruto do seu futuro casamento com Ian, acabará morrendo de uma doença não mencionada (no conto, ela morre em um acidente durante uma escalada) – mas mesmo sabendo de todo o sofrimento que a aguarda, a linguista escolherá ter a mesma vida, viver plenamente cada momento ao lado da filha. “Se você pudesse ver toda a sua vida, do princípio ao fim, você mudaria algo?”, pergunta ela a Ian e ao espectador, no final do filme.

Essa é, talvez, a maior grandeza de A Chegada: não é apenas um filme sobre o contato com visitantes alienígenas, nem apenas sobre linguagem e diálogo, nem apenas sobre o tempo, nem apenas sobre a vida de Louise, Ian e Hannah. É um filme sobre tudo isso, mas também sobre a vida de todos nós (e eu, que recém abracei a paternidade e tenho vivido, desde 31 de outubro de 2016, momentos mágicos e únicos ao lado do meu filho, tenho ainda mais motivos para me identificar do que teria antes).

A CHEGADA COMO ADAPTAÇÃO

Quando se vê um filme que foi adaptado de uma obra literária, é inevitável que se faça uma comparação com o texto que o inspirou. Qual das duas obras resolve melhor o problema apresentado, qual apresenta a narrativa mais coesa e amarra melhor os elementos? Citei antes três exemplos de filmes que, na minha opinião, superaram os livros. Não é o caso de A Chegada.

HistoriaDaSuaVidaGPor mais méritos que tenha o roteiro escrito por Eric Heisserer, faltaram alguns elementos do conto de Chiang que considero fundamentais para a história.

Um desses pontos é o papel da matemática e da física no diálogo com os heptápodes. No filme, a função de Ian na missão é desidratada e ele acaba atuando mais como ajudante de Louise que como cientista com agenda específica. Isso, aliás, é uma incoerência até com o próprio roteiro, que mostra logo no início uma troca de farpas entre o físico teórico e a linguista. Ian começa tão seguro de si e defensor das ciências ditas Exatas e acaba quase como um cara de Humanas.

No conto, o cientista e futuro marido da protagonista (e que, aliás, se chama Gary e não Ian) tem como tarefa descobrir se há conhecimentos comuns, principalmente de física e matemática, que permitam a heptápodes e humanos trocar informações e ensinamentos científicos. Um dos resultados dessa investigação é a constatação de que os aliens parecem ignorar fundamentos que, para nós, são básicos, enquanto dominam outros muito mais complexos.

O grande ponto de virada se dá quando uma das equipes espalhadas pelo mundo descobre que os heptápodes estão familiarizados com o Princípio de Fermat, que diz que a trajetória que a luz percorre de um ponto a outro é sempre a mais rápida possível. Ao explicar esse ponto a Louise, Gary dá a ela as bases para decifrar plenamente tanto a escrita quanto a visão de mundo dos aliens. Antropomorfizando os elementos do princípio científico, Chiang explica ao leitor que, para que a luz “descubra” qual é o caminho mais rápido de um ponto a outro, é preciso que ela já “saiba” onde “pretende” chegar e por onde vai passar antes da largada. Em suma, é preciso que a luz “preveja o futuro”.

Assim, a partir do domínio desse conceito, Louise aplica o princípio à escrita heptápode e percebe que, ao começar a traçar a primeira linha, os aliens já sabem como será toda a estrutura do texto. É como se não houvesse antes e depois. Ela entende, aí, que a linguagem (e, por extensão, a mente) dos aliens não é linear e sua percepção do tempo é simultânea. Portanto, é inútil perguntar a eles sobre “propósitos” ou “o que eles querem”, pois a pergunta não faz sentido. Para os heptápodes, o tempo e os acontecimentos não são vistos em termos de causa e consequência, mas como momentos interligados.

Aqui, há um ponto que considero exagero do filme: o conto não é sobre “prever o futuro”. O máximo que se pode depreender é que o domínio da língua heptápode adapta a mente para uma percepção diferenciada do tempo e uma relação da pessoa com os acontecimentos em que as memórias não são armazenadas de forma sequencial. Mas não significa que alguém saberá hoje quais números serão sorteados na Mega Sena da semana que vem. A minha interpretação é que uma pessoa com a mente moldada pela linguagem dos aliens verá cada momento como uma experiência única, sem se preocupar com o que veio antes e o que virá depois, pois todos os momentos são um único momento. A solução do filme ficou ruim? Não, mas prefiro a do conto.

Um pecado do filme, na minha opinião, é a aparência dos signos da língua heptápode escrita. A lógica do conto (a relação da escrita alienígena com o Princípio de Fermat) é que os símbolos complexos, quando unidos em construções textuais, apresentam-se amalgamados em uma única peça, um único grande mosaico. E o primeiro traço já considerava a forma final que o grande mosaico textual teria depois de pronto. No filme, os logogramas são peças circulares isoladas, e um grande texto se assemelha a um monte de círculos dispostos lado a lado. Não há, ali, a integralidade e a unidade estrutural sugeridas pelo conto de Chiang na escrita dos aliens.

arrival amy adams

Por fim, o filme cria uma atmosfera de tensão bélica, quase uma “Guerra Fria” entre as nações que trabalham para dialogar com os visitantes. O roteiro envereda, a certo ponto, por esse caminho quase de thriller de ação em que Louise precisa correr contra o tempo (e prever o futuro) para evitar que os chineses e russos iniciem uma guerra total contra os heptápodes (além das iniciativas internas de alguns militares americanos fãs de John Wayne para atacar a nave estacionada em Montana). Provavelmente, essa escolha foi feita para tornar o filme palatável a um público mais amplo.

No final, Louise e a alternativa diálogo acabam vencendo e o filme continua sendo maravilhoso. Mas que fazem falta alguns elementos do conto, ah, fazem.