Deadpool: o que acontece quando um abacate velho encontra outro mais velho

Senhor D
Por Senhor D
15/02/2016

Deadpool está arregaçando as bilheterias mundo afora. Fez por merecer, o Tagarela. Quem conhece a trajetória do mercenário sabe bem. Deadpool sempre gostou de contrariar expectativas. Depois de ser humilhado em um filme cujo nome do protagonista rima com “Polverine”, o vilão coadjuvante que nasceu e sobreviveu à década menos memorável dos quadrinhos chegou aos cinemas para mostrar o que acontece quando um abacate velho transa com outro abacate mais velho ainda só por raiva.

O filme do Deadpool é uma linda história de perseverança e superação, e tem muito a ensinar aos graudões da sétima arte. É a prova de que fazer o básico é melhor do que fazer merda. Porque Deadpool é um filme simples, pragmático, até. Parece a seleção da Alemanha. Não se arrisca demais, não se expõe, mas também sabe jogar para a torcida se precisar.

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A sucessão de acertos começou muito tempo antes, com o “vazamento” daquele curta em computação gráfica, vocês lembram? O material, um piloto que serviria para convencer o estúdio a bancar o filme, caiu na internet e empolgou todo mundo. Daí para frente, o apelo para que a obra saísse do papel ganhou coro forte. E não demorou para sermos agraciados com um aceno positivo dos executivos. Festejamos, ainda que com um pé atrás —  Ryan Reynolds, Fox… o que esperar?

Deadpool-Jump-GunDepois da confirmação dos homens do dinheiro, começaria um dos trabalhos de marketing mais empolgados e engajados da história do cinema. Ryan Reynolds centralizou a tarefa. Furtou o uniforme vermelho para si e inundou a internet com chamadas cômicas e fotos bizarras, mostrando que não fazia questão alguma de se levar a sério.

A melhor notícia veio em seguida, depois de umprimeiro de abril, Dia da Mentira, quando Deadpool divulgou, ao seu estilo, a classificação indicativa do filme. Estava definido: o bicho vai pegar e a China que nos perdoe.

Os leitores comemoraram a censura alta, mas o selo teve seu preço. O orçamento para o Tagarela foi baixo, algo em torno de US$ 50 milhões, quantia bem inferior à maioria dos concorrentes do gênero. À época, Reynolds fez questão de tranquilizar a galera. Dizia algo parecido com “a falta de verba é a mãe da inventividade”. Pois, agora, o filme está aí, em cartaz, arrecadando. É bom, esse Ryan Reynolds.

Voltemos à seleção da Alemanha, ou melhor, ao filme. Trata-se de um dos fan services mais descarados da história. E o melhor: não tem nenhuma vergonha ou ressentimento por isso. Simplesmente roubaram a essência da personagem dos quadrinhos que nós conhecemos e a despejaram na tela do cinema, bem na nossa cara.

Em resumo: se você gosta do Deadpool por causa da metalinguagem, vai gostar do filme. Se você gosta do Deadpool por causa da boca suja, vai gostar do filme. Se você gosta do Deadpool por causa do humor, vai gostar do filme. Se você gosta do Deadpool por causa da violência, também vai gostar muito do filme. E, se você não gosta do Deadpool por algum desses motivos, vá reassistir ao Quarteto Fantástico.

O fato é que está tudo lá, na telona, como queríamos, como esperávamos – com uma ou outra alteração na história de origem, mas nada que perturbe; saiba que até melhoraram um pouco, diga-se de passagem.

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Ah, e por falar em fan service, como é aprazível ver o Deadpool fazendo dele nossas palavras ao sacanear filmes como Lanterna Verde ou X-Men Origens: Wolverine. Por mais que falar mal dessas bombas seja o mesmo que chutar cachorro morto, é sempre bom ver a verdade ser dita em voz alta.

E, como é bom dizer a verdade, aí vai mais uma: Ryan Reynolds está impecável no papel. Deu para sentir nas entranhas o esforço do cara para se redimir. Da minha parte, Ryan, você está perdoado. Vá com Deus e não peque mais.

O elenco de apoio também está ótimo – tanto no que se refere à atuação quanto ao figurino. Depois do Dead, o destaque vai para o Colossus. Que sotaque! Que carisma!

Apesar de tudo que eu disse, Deadpool não é uma obra-prima da sétima arte. Reafirmo: é apenas um filme que se atém ao principal, que mantém o foco, que debocha de clichês se apegando a um dos mais batidos deles – para não ter erro. Demonstra que não é só com explosões (ou cifrões) que se faz uma grande obra. Dentro desse mundinho de filmes de super-heróis, Deadpool consegue ser o mais fiel à sua mídia natal – e olha que ele não é exatamente um super-herói.

deadpool-amorAdmito que sou suspeito. Poucas vezes torci tanto para um filme dar certo. Ainda vibrando de empolgação, enquanto esperava todas as letrinhas subirem para assistir à cena pós-creditos, cheguei a duvidar do meu veredicto.

Antes de falar “fodaaaaa!” pela terceira vez ao vizinho de poltrona, ponderei: talvez o longa não seja tão recomendável assim. Talvez eu estivesse predisposto a gostar, independente do que visse… Que besteira, cara, esse filme é bom demais. Esse filme é fodaaaaaa!.

Por fim, no acender das luzes, pensei: só tem uma coisa melhor do que ver o Deadpool destruir vilões de calça marrom: ver o Deadpool  quebrar a quarta parede e falar com você, olho no olho, na intimidade. Acredite, você se sente especial.