Chappie: um conto de fadas com pitadas de sci-fi (e vice-versa)

Senhor D
Por Senhor D
05/05/2015

Estamos em Joanesburgo, em um futuro ligeiramente à frente do nosso tempo. Um exército de robôs substitui a força humana no combate à violência. As máquinas tornaram as ruas mais seguras, mas a violência segue emaranhada na metrópole sul-africana. Trabalho extra para os androides, novas encomendas para a indústria, mais louros para Deon Wilson (Dev Patel), a cabeça por traz da representação robótica da lei.

Apesar do sucesso incontestável, o badalado batalhão robótico não é o trabalho da vida de Wilson. Sua obra-prima, recém-finalizada, lhe enche de orgulho e expectativa, mas acaba sendo rejeitada na companhia bélica que o emprega, a Tetra Vaal. Frustrado, o jovem engenheiro resolve dar à luz sozinho sua revolucionária criação. Para isso, cata uma unidade danificada, condenada à reciclagem, e implanta nela o software de inteligência artificial que acaba de desenvolver.

chappie

A partir daí, com uma reação em cadeia proveniente de peculiar determinismo cinematográfico, é estabelecida a seguinte situação: um androide com consciência semelhante à humana, capaz de sentir emoções, pensar, criar e aprender por conta própria, cai nas mãos de um grupo de bandidos com pretensões nada louváveis: utilizar o robô para fins criminosos, um grande assalto, mais precisamente. Ao mesmo tempo, o engenheiro rival de Deon (interpretado por Hugh Jackman) tenta sabotar toda a criação do colega para se promover — incluindo o androide pensante, agora batizado de Chappie.

Aí está o resumo by Senhor D do ponto de partida do terceiro e mais recente filme do diretor Neil Blomkamp, ainda em cartaz nos cinemas (assista ao trailer abaixo).

Chappie prometia, desde as primeiras imagens de divulgação, entregar uma ficção científica “como você jamais viu”. Não é o que acontece. Sim, temos um filme original — ainda que em relação a ele mesmo –, que busca saídas menos previsíveis para o que propõe. No mais, podemos guardá-lo junto a outras tantas obras do gênero, não só no cinema, mas de todas as mídias. Em covarde exercício das comparações, limitando em alguns personagens, diria eu que o filme começa como Robocop, se desenvolve como Wall-E e conclui-se tal qual Pinóquio.

Não poderia deixar de ser, o longa tem muito da identidade visual e ideológica que o jovem diretor vem consolidando. Blomkamp, embora em começo de carreira, faz questão de reconhecer firma ao revisitar, dos pontos de vista estético e estrutural, os antecessores Distrito 9 (2009) e Elysium (2013). Porém, agora, a proposta vai além dos problemas sociais dos tempos vindouros — sejam de natureza humana ou extraterrestre. Dessa vez, a palavra-chave é existencialismo.

Chappie é um robô com consciência de sua existência, mas sem uma compreensão do que isso significa, assim como nós. Também como nós, sabe que seu tempo é limitado, que vai morrer. A diferença é que Chappie tem a certeza de que existe um criador (dúvida que ainda não somos capazes de sanar), e tem a chance (dessa vez não como nós) de perguntar qual a razão disso tudo. Qual o sentido da vida? Da morte? Questionamentos antigos, senhoras e senhores, mas que seguem sem resposta. Logo, questionamentos válidos.

Blomkamp é bom nisso, em levantar indagações (tanto antigas quanto novas). A partir dessa produção, podemos discutir os limites da ciência, discutir a função da família, discutir a desumanização da autoridade, a imprevisibilidade da tecnologia, discutir a diferença entre algo e alguém (penso, logo, existo?), além de outros temas de respostas ausentes — ou inexistentes.

O problema do diretor, porém, é a forma didática com que expõe cada interrogação — algo que se repete desde sua estreia. Ainda assim, o simples fato de incitar a reflexão acaba por ser algo louvável — e isso também se repete desde sua estreia.

Chappie é um filme que tem méritos, entretanto, foi vendido da maneira errada – pelo menos do ponto de vista do espectador. Não se trata de uma obra-prima da ficção-científica, e sim um conto de fadascontemporâneo e visualmente descolado – o que não seria demérito algum, contanto que você soubesse disso antes de comprar o ingresso.

No fim, fica a sensação de “bateu na trave”. Um filme comercial demais para ser cabeça, e cabeça demais para ser comercial. Apesar de tudo, o saldo é positivo, e não há de5 se arrepender quem se dispor a investir tempo na saga da condenada unidade 22.

Entre momentos cafonas e sacadas inteligentes, vale a pena assistir àquele simpático amontoado de aço e parafusos despertar para o mundo como uma criança, dar seus primeiros passos, pronunciar suas primeiras palavras, “crescer” às margens de uma sociedade caótica, buscar sua identidade enquanto sobrevive às mazelas de um lar desajustado e, ainda assim, manter sua integridade blindada graças aos escassos bons ensinamentos que recebeu.

E então, no final, todos vivem felizes para sempre… ou não.

Cotação:

Três-Dinamites