Blade Runner 2049: Androides sonham com almas gêmeas elétricas

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
14/10/2017

Fui ver Blade Runner 2049 com a expectativa bem em baixa, não só por ter lido e ouvido avaliações negativas (o amigo Carlos André Moreira o definiu assim: “a decepção mais linda que tive nos últimos anos”), quanto pelo medo que eu vinha sentindo, desde que a produção foi anunciada, de que o novo filme estragasse o legado do clássico de 1982. Blade Runner, o original de Ridley Scott, é nada menos que o meu filme favorito, uma obra que adapta o romance de Philip K. Dick Androides sonham com ovelhas elétricas? (para ler nossa resenha, clique aqui) e, na minha opinião, supera o livro.

Mas o novo filme, desta vez dirigido por Denis Villeneuve, não apenas não me decepcionou como me agradou muitíssimo. Minha avaliação é que Blade Runner 2049 funciona bem como sequência, como filme de sci-fi e como adaptação da obra de Philip K. Dick. E num ponto concordo com o Carlos André: é lindo.

O DESAFIO DA SEQUÊNCIA

Quando anunciaram o filme, acho que há uns dois anos, só pude pensar uma coisa: “Qual a chance de isso não dar merda?” Blade Runner é uma obra fechadinha e redondinha, sem muita margem para uma continuação, ainda mais uma que se passe 30 anos no futuro (!). Afinal, o clássico de 1982, ambientado em 2019, estabeleceu que [1] replicantes têm tempo limitado de vida (quatro anos) e [2] o protagonista, Deckard, é um replicante. Logo, uma história que acontece em 2049 não poderia contar com Deckard entre as personagens, certamente não um Deckard envelhecido, como foi divulgado desde o início da produção.

A cútis de quem passou 30 anos vivendo de uísque e mel

A cútis de quem passou 30 anos vivendo de uísque e mel

O novo filme resolve isso já na narração inicial (por escrito, como no Blade Runner original): Deckard é um androide da série Nexus 8, que não tem tempo de existência pré-definido. Pode-se questionar o mérito dessa solução para o problema,  mas o fato é que o problema foi resolvido e a presença em cena de um Deckard idoso está justificada.

Um outro ponto que, antes de eu assistir ao filme, me causava certo desconforto neste salto temporal de 30 anos é que tanto o romance de Philip K. Dick quanto o filme de Ridley Scott apresentavam, de modos diferentes, uma Terra e uma humanidade decadentes. A esperança de futuro e de renovação estava nas colônias espaciais e o planeta-mãe parecia (mais no livro que no filme) estar em seus últimos estertores. Então, como um mundo desses chegaria em tão boa forma a 2049? Mais uma vez, a questão é resolvida em uma frase: a fome do mundo foi erradicada graças às criações genéticas da companhia Wallace.

A Wallace, comandada por Niander Wallace, personagem de Jared Leto, também comprou o espólio da Tyrell, a corporação dominante do primeiro filme, que faliu depois que o seu principal produto, os androides Nexus, foi proibido. Wallace passou a fornecer replicantes mais estáveis, embora pouco se diga sobre o que eles têm de diferente dos Nexus. Aparentemente, pode ser a qualidade das memórias introduzidas em seu cérebro, o que será, lá adiante, uma chave para compreendermos a trama desenvolvida no novo filme.

O enredo de Blade Runner 2049 se desenrola sempre em torno do filme original. O destino de Deckard e Rachael, o casal de replicantes que foge no final de Blade Runner, está entrelaçado ao destino de todos os replicantes e de toda a humanidade. Desde o início, quando o caçador de androides K (Ryan Gosling) vai a uma fazenda de proteína da Califórnia para ‘aposentar’ um Nexus 8 foragido, no que seria uma missão de rotina, surge uma ponta do novelo que será desfiado e novamente enrolado ao longo de todo o longa (e que longa longo!), com referências à obra de 1982 que servem não apenas como fan service, mas também e sobretudo para rediscutir aquele universo e apresentar novas dimensões e novos viéses.

O QUE É TER UMA ALMA?

Se eu pudesse definir Blade Runner 2049 em uma frase, seria esta: trata-se de um filme que discute o que algo precisa ter para ser considerado ‘vivo’ e dotado de alma. Isso, aliás, é um denominador comum entre o novo filme, o filme de 1982 e o livro.

"Como uma garota real"

“Como uma garota real”

Se no Blade Runner original a jornada dos Nexus 6 para encontrar seu criador e tentar vencer a morte serve de metáfora da condição humana e no livro de Dick a humanidade entra em desespero com a solidão com que depara após extinguir quase toda a vida do planeta, o filme de 2017 trata do desejo das criaturas artificiais de se reconhecerem e serem reconhecidas como dotadas de alma.

spoiler-alerta

Para mim, a personagem que melhor demonstra este salto da inteligência artificial é a simulação Joi, o holograma de mulher interpretado por Ana de Armas.

Companheira virtual de K, limitada pela ausência de corpo físico e, a princípio, com a liberdade de movimentos restringida pela sua vinculação ao hardware instalado em casa, Joi protagoniza algumas das mais belas cenas de Blade Runner 2049.

No livro de Dick, Deckard, que é um caçador de recompensas, mata androides para juntar dinheiro para comprar uma ovelha de verdade, um animal genuinamente vivo para alegrar a sua esposa deprimida. No filme de Villeneuve, este elemento do livro é, de certo modo, transposto para a tela quando K, após aposentar um replicante na fazenda de proteína, usa o pagamento para comprar um presente para Joi: um emanador portátil que permite que ela vá com ele a qualquer lugar, libertando-a da “prisão” do hardware. A expressão de felicidade de Joi ao receber o presente e, em seguida, andar pela primeira vez no lado de fora do prédio, tomando um banho de chuva com K, é a alma de uma das sequências mais lindas que já vi.

Joi nos maravilha com outras demonstrações de humanidade genuína, como quando pede que K a delete do console e a mantenha apenas no emanador, para evitar que seus dados caiam nas mãos dos seus perseguidores. Quando ele diz que isso faria com que ela morresse se qualquer coisa acontecesse ao emanador, ela apenas responde que é isso que acontece com qualquer garota de verdade. Ao contrário de Roy, o líder replicante do filme de 1982, que deseja viver mais, Joi quer abraçar a mortalidade porque isso a torna mais humana.

Esta demonstração de ‘humanidade’ também está presente, de forma um pouco diferente, nos replicantes apresentados em cena. A descoberta, feita lá no início do filme pela polícia de Los Angeles, de que a replicante Rachael deu à luz um bebê torna-se [1] motivo de alerta para a chefe de polícia Joshi (Robin Wright) – que teme uma rebelião dos replicantes se a notícia chegar a eles – , [2] esperança de futuro para os androides e [3] uma oportunidade para Niander Wallace, que vinha tentando, em vão, produzir replicantes capazes de se reproduzir (esta obsessão do magnata, como aponta o Carlos André Moreira, é meio que um paradoxo, pois, se os replicantes puderem produzir outros replicantes, o negócio do próprio Wallace torna-se supérfluo).

A gravidez de Rachael, descrita como um ‘milagre’ tanto por replicantes quanto por Wallace, que usa um discurso religioso o tempo todo, é, contudo, resultado de pesquisa científica. O próprio Wallace diz que a reprodução dos replicantes foi uma das últimas sacadas do velho Tyrell. Por que, então, o comprador do espólio da companhia Tyrell não consegue repetir o feito? Aqui, há outro elemento introduzido pelo novo filme: um grande blecaute (que é melhor explicado em um dos curta-metragens divulgados pela produção do filme antes do lançamento) resultou na perda da maioria das informações que constavam nos bancos de dados existentes, o que é muito conveniente para o movimento de replicantes que se articula, nas sombras, para fazer a sua revolução. Uma revolução que só é possível porque os novos replicantes trazem em si a centelha do bebê de Rachael, as memórias reais inseridas neles com a ajuda da Dra. Ana Stelline (Carla Juri), o milagre vivo.

A cena final, quando Deckard vai conhecer sua filha e Joe (o antigo K) morre lembrando com saudade da neve que a pequena Ana vivenciou na sua infância real, é um desfecho lindo de chorar (mas eu choro facinho no cinema, então sou suspeito).

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Enfim, Blade Runner 2049 é um filme visualmente belíssimo, com uma trilha sonora que, embora não atinja o nível magistral da criada por Vangelis em 1982, também me arrebatou e, sobretudo, dialoga de forma convincente com o romance de Philip K. Dick e com o filme de Ridley Scott. Se há algumas cenas desnecessárias aqui e ali, uma ou outra pontinha que o roteiro não conseguiu enrolar, isso não impede que se diga que o filme tem alma. Uma maravilhosa surpresa para quem entrou na sala de exibição esperando o pior.

blade runner 2049