Bird Box: uma teoria bem mais interessante que o filme

Senhor D
Por Senhor D
09/01/2019

Uma misteriosa presença leva as pessoas ao suicídio. Cinco anos depois, uma sobrevivente e seus dois filhos saem em busca de um abrigo seguro.

Eis a sinopse apresentada pela Netflix para o filme Bird Box (2018), dirigido por Susanne Bier. É impressionante o poder de síntese da Netflix no que se refere a resumos de conteúdo. Esses textos de apresentação são tão concisos que beiram o minimalismo — parecem até dica de jogo de adivinhação: “‘Uma misteriosa presença leva as pessoas ao suicídio. Cinco anos depois, uma sobrevivente e seus dois filhos saem em busca de um abrigo seguro’. Valendo 10 pontos, qual é o filme?”

Mas se a Netflix é econômica com palavras em sinopses, o mesmo não vale para suas campanhas de marketing. No caso de Bird Box, especialmente falando, o investimento em publicidade foi pesado. De outdoors pela cidade à propaganda na TV aberta, das timelines das redes sociais aos cartazes em bancas de revista. O rosto sofrido e vendado da Sandra Bullock, a protagonista, esteve em toda parte para anunciar aquele que seria um dos maiores sucessos da plataforma. Sim, porque a publicidade, ao que parece, deu certo. Somente na semana de estreia, Bird Box foi colocado para rodar em mais de 45 milhões de contas — um recorde absoluto para a empresa. Nossos parabéns à Netflix e à Sandra Sempre em Forma Bullock, portanto. Aliás, John Malkovich, aquele que todos querem ser, também está no elenco. Parabéns a ele também.

A respeito do conteúdo propriamente dito de Bird Box, nada muito surpreendente a se destacar (isso em um primeiro momento, isso aparentemente, isso explico mais adiante). O roteiro (apesar de ser um pouco mais complexo do que representa a sinopse da Netflix) usa uma fórmula corriqueira que consiste em aliar urgência e distopia. Ou, melhor dizendo: estabelecer a causalidade entre a distopia iminente e a urgência mais do que iminente (urgências são necessariamente iminentes por definição). Afinal, parece viável substituir a sinopse da Netflix por algo como: “em uma sociedade devastada pelo surgimento de uma ameaça aterrorizante, sobreviventes precisam deixar seus abrigos em busca de recursos e de um novo local seguro. Porém, durante o percurso, eles descobrirão que a natureza humana pode ser um inimigo tão perigoso quanto”.

Agora, pense por um momento em quantos filmes você já viu que podem ser descritos a partir desse mesmo mote? E qual o problema disso? Nenhum, evidentemente. Há um motivo para que fórmulas de sucesso sejam chamadas de “fórmulas de sucesso”. A repetição de estratégias narrativas, por si só, não corresponde a um aspecto necessariamente negativo — a não ser que você preze demasiadamente por originalidade (e se este for o caso, uma atitude plausível a ser tomada é o cancelamento da Netflix). Filmes — e obras artísticas em geral — precisam ser inéditos, sim, mas não forçosamente originais (afinal, conforme brada o lugar o comum, nada se cria).

Mas é bem possível que eu esteja totalmente equivocado e que não tenha entendido nada sobre os emaranhados de Bird Box. Nem eu, nem o cara que escreve as sinopses da Netflix. Digo isso sinceramente, pois li pela internet diversas interpretações desse filme que me fizeram refletir e reconsiderar a profundidade da obra. Repito, digo isso sinceramente. (Vale lembrar que o filme Bird Box é a adaptação do livro Bird Box, de Josh Malerman, lançado em 2014, e muitas vezes, nesses casos, os leitores tendem a ter uma perspectiva mais ampla, uma concepção mais esclarecedora da história — embora eu entenda que sejam obras e plataformas diferentes e que precisam funcionar de modo independente uma da outra).

São interessantes, por exemplo, as relações que alguns comentadores e resenhistas fizeram entre as entidades de Bird Box e o horror cósmico de Lovecraft, embora eu mesmo não tenha tido essa sensação enquanto assistia. Teve ainda uma teoria em particular que me chamou atenção – chamou tanta atenção que eu até gostaria, de verdade, que os autores surgissem e dissessem: “é isso aí, gente, é bem isso, vocês entenderam tudo!”.

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Essa teoria se desenvolve mais ou menos assim: Bird Box seria, na verdade, um filme sobre maternidade. Mais especificamente, sobre um mal que assola parte das mulheres que “enfrentam” a maternidade: a depressão. (Nota: coloco “enfrentam” entre aspas para ressaltar que entendo a possibilidade de que o termo “enfrentar” talvez não seja apropriado para algumas mulheres. Esse verbo, enfrentar, pressupõe um adversário — ou uma adversidade –, e pode ser que nem todos vejam dessa forma uma gravidez, um parto e/ou tudo o que vem depois. Reconheço, portanto, que algumas palavras possam ser substitutas mais apropriadas. Quer dizer: a maternidade não precisa fatalmente ser enfrentada. Pode ser simplesmente vivenciada, apreciada, experimentada, encarada, desfrutada etc. E mais: pode ser tudo isso ao mesmo tempo. Ainda assim, distante horrores de um lugar de fala adequado, arrisco dizer que uma gravidez assolada por um estado depressivo é algo que deva ser enfrentado ). Malorie, a personagem interpretada por Sandra Cada Vez Melhor Bullock, seria, de acordo com essa leitura, uma mãe em um embate interno contra a depressão pré e pós-parto. A história toda, nesse sentido, estaria se passando somente na cabeça dela (É tipo o sonho do cachorro de Lost).

Por não aceitar sua condição de grávida e, posteriormente, de mãe, Malorie entra em depressão profunda. Nega a “criatura” que carrega no ventre e, sem saber o sexo do bebê, refere-se a ele apenas como “Garoto” ou “Garota”. A partir do nascimento, porém, o que se vê no filme é uma busca por conexão entre a mãe e a(s) criança(s), enfrentando (ou fugindo) dos “monstros” que podem levá-la ao suicídio (vale ressaltar: não são monstros suicidas, são monstros, se é que são monstros, que levam os outros, quase que invariavelmente, ao suicídio).

Uma das indicações de que essa interpretação é verdadeira, apontam os adeptos da teoria, é a presença da obstetra de Malorie na escola de cegos ao final do filme (uma coincidência grande demais para alguns espectadores, mesmo levando-se em consideração o fator “magia do cinema”). Outra pista seria uma frase proferida por Malorie em determinado momento da narrativa: “Salve ao menos as crianças”, diz a protagonista – algo que poderia indicar algum tipo de complicação durante o parto.

Bom, honestamente, não sei se essa teoria é verdadeira — acho até que não é, apesar de gostar bastante dela. Na realidade, existem outros indicativos que a reforçam (indicativos que envolvem cores, símbolos e outras pistas distribuídas ao longo do longa). Mas, independentemente da veracidade desse entendimento, e independentemente da veracidade de qualquer entendimento, é interessante notar a subjetividade dos espectadores construindo sentidos tão complexos a partir de tramas tão banais quanto esta, que apenas diz respeito a uma misteriosa presença que leva pessoas ao suicídio e a uma sobrevivente que, junto com seus filhos, sai em busca de um abrigo seguro. No fim das contas, como diria Bergson, o sentido não está na mensagem nem nos interlocuores (no caso, autores e espectadores): está na tentativa de criar, por meio de processos de alteridade, significações aproximadas e coletivamente logradas. A referência, lembra Quine, é, afinal, totalmente inescrutável — estejamos de olhos vendados ou não.