Avatar: holismo for dummies [Uísque Envelhecido #001]

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
18/04/2016

[Este é o post de estreia da seção Uísque Envelhecido, em que os garçons desta Taberna oferecem doses generosas de destilados culturais que já saíram há algum tempo das prateleiras de lançamentos, mas nem por isso deixarão de ser consumidos no nosso estabelecimento]

Sabe aquele seu amigo que não entendeu lhufas do discurso do Arquiteto em Matrix Reloaded? Bom, ele é o que podemos chamar de “pessoa normal”. Ninguém pode ser menosprezado por não entender aquilo.

Porém, há quem não compreenda nem enredos simples e simbologia banal. Na engenharia de produção da indústria cultural, menos (complexidade) é mais (lucro); por isso, a maioria dos produtos culturais de massa são feitos sob-medida para pessoas incapazes de perceber chistes e mensagens em livros e filmes a menos que sejam escritos explicitamente, de preferência em negrito, sublinhado e com notas explicativas.

avatar rocks

Kiloucura

Mas poucas obras se comparam a Avatar, o filme lançado por James Cameron em 2009, no esforço para ser assimilável e receber o selo de Filme Amigo dos Espectadores Incapazes de Entender a Moral da História.

Lembro que a obra foi lançada com a grande promessa de uma revolução no modo de fazer e de consumir cinema. Seria o primeiro filme feito para o mercado 3D, e que ofereceria uma experiência de “imersão”: sentado na sala de exibição, o espectador, diziam eles, se sentiria parte do filme, de vez em quando até olharia para trás, instintivamente, para ver se o Coronel Quaritch estaria à espreita pendurado em uma árvore de neon na fila J.

Fomos enganados.

Vi Avatar duas vezes no cinema, uma delas no bom e velho 2D e a outra em 3D e quase não notei diferença entre as duas experiências. Os comerciais exibidos na telona antes do filme, aqueles em que bolinhas e animaizinhos voam em direção à plateia, foram um aproveitamento muito mais eficiente do 3D.

Mas isso não quer dizer que Avatar não seja uma belíssima experiência visual. O filme é de encher os olhos, em especial as cenas noturnas nas luminosas selvas do planeta Pandora  – que parece um ecossistema de neon.

Não que haja um colorido coro de passarinhos fazendo coreografia com uma Branca de Neve exultante. Não, Pandora pode ser um lugar muito perigoso, o que justifica o nome. Em um dos mitos gregos da criação, Pandora, a primeira mulher a ser criada, recebeu um jarro (hoje conhecido como “Caixa de Pandora”) que continha todos os males do mundo. Ela abriu o presente para dar aquela espiadela marota e deixou escapar todos os males – menos a esperança. E a mensagem do filme é justamente de esperança.

Além da referência vaga à cosmogonia grega, Avatar segue o mito moderno do Bom Selvagem de Rousseau e outros pensadores. No plano das obras de ficção, o filme, a exemplo de Robinson Crusoé ou, de modo mais aproximado, Dança Com Lobos e O Último Samurai, aposta na ideia de que a civilização judaico-cristã-europeia-americana é um mal que pode ser redimido se adotarmos o modo de vida de povos mais primitivos, que vivem em harmonia com a natureza. É um manifesto holístico-ecológico, que defende um modo de vida integral e conectado à natureza.

Para ter certeza de que todos os espectadores assimilariam a mensagem, Cameron (que assina roteiro e direção) tratou de colocar tudo em termos literais. Pra não haver dúvida.

Ao se estabelecer em Pandora, em busca de um minério cobiçado chamado Unobtainium, uma corporação econômica/militar passa a negociar com os Na’vi, a raça humanoide nativa do planeta. E, para interagir com eles, são criados avatares, espécimes “ocos”, com corpo de Na’vi e mente vazia, podendo ser controlados por um humano que assume a sua identidade.

avatar jake

Nunca me disseram que os Smurfs podiam ser tão grandes

Esse é um dos elementos em que Cameron abraça a literalidade: se, em Dança Com Lobos, Kevin Costner opta pelo modo de vida lakota e, em O Último Samurai, Tom Cruise opta por viver como os samurais, lá em Pandora o protagonista Jake, um soldado usado para investigar os Na’vi controlando um avatar, acaba se tornando LITERALMENTE um nativo. Porque talvez alguém na plateia de Dança Com Lobos não tenha entendido que o Tenente John J. Dunbar abandonou seu antigo eu e passou a ser Šuŋgmánitu Tȟáŋka Ób Wačhí, o roteirista/diretor de Avatar preferiu não deixar dúvidas. O recado é: “Gente, Jake virou um Na’vi. Mesmo. Fisicamente.”

Mas o ponto mais tati-bitati e que mais despreza a inteligência do espectador é, sem dúvida, a comunhão ecológica das criaturas vivas de Pandora.

Os Na’vi adoram Eywa, o espírito que congrega todas as coisas vivas, um equivalente espacial ao mito terrestre de Gaia. A mensagem do filme, tirada de tantas correntes místico-ecológicas existentes, é que os seres vivos formam, juntos, um super-organismo simbiótico e que tudo está conectado. Poderíamos entender isso numa boa mesmo se a interligação ficasse no plano da figuração, mas em Avatar a conexão é, também ela, literal. Tanto os Na’vi quanto os animais e plantas de Pandora têm apêndices nervosos que podem se conectar uns aos outros, como se fossem cabos e plugues USB. Uma vez conectados por esse cabo, os seres entram em sintonia e vivenciam uma “co-existência” plena. Isso é que design inteligente.

Ao contrário das outras histórias de redenção de culturas tribais citadas neste post, em Avatar os nativos vencem. Derrotam uma civilização tecnológica com suas flechas e principalmente com a intervenção de Eywa, que manda um exército de “rinocerontes” e bestas aladas para atacar as naves e robôs gigantes dos humanos malvados.

avatar colonel

Homens armados querendo destruir uma árvore. Impossível imaginar vilões mais estereotipados

Todos os espectadores entenderam que em Pandora as criaturas formam um único ser e que o seu modo de vida é o mais nobre, James. Parabéns. O problema, talvez, seja que uma mente que não consegue compreender uma mensagem de interconexão a menos que essa conexão seja literal provavelmente não entenderá que pode haver harmonia também num planeta em que as pessoas não tenham cabos USB na nuca. Um planeta como o nosso, por exemplo.

Em todo caso, Avatar pode ser uma experiência prazerosa, principalmente pelo visual exuberante. Dá barato sem precisar de chá de cogumelos.