AT-AT de Star Wars: uma mancada da engenharia imperial

Jefferson Nunes
Por Jefferson Nunes
21/12/2016

Em uma série ambientada no espaço, como Star Wars, muitos são os elementos tecnológicos presentes, e, em um contexto de guerra constante como aquele mostrado nos filmes, o aparato militar exibido na telona é bem variado. Nem só de destroieres, TIE-Fighters e outras naves é feita a força imperial, mas também de tropas terrestres, com seus veículos próprios. Em cada filme de SW, é apresentado algum artefato militar novo, muitos dos quais se tornam icônicos e fazem parte da essência da saga de George Lucas, reconhecíveis em qualquer roupagem, mesmo por quem não conhece muito a franquia.

Dentre esses, um dos mais lendários é o AT-AT (sigla para All Terrain Armored Transport, ou Transporte Blindado para Todos os Terrenos), que apareceu pela primeira vez em O Império Contra Ataca, em 1980, na batalha no planeta gelado de Hoth. Um imenso quadrúpede de metal, o AT-AT é dotado de grande poder de fogo, e também é utilizado para o transporte de tropas, o que lhe garante versatilidade em batalha.

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Seu reaparecimento em Rogue One, na batalha de Scarif, porém, levanta algumas questões da real eficiência do grande quadrúpede de metal, e, por isso, resolvi escrever um texto para explorar a questão e debater sobre os pontos fortes e fracos desse gigante do Império (em todos os sentidos).

UM GIGANTE DE METAL

 

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No universo de Star Wars, o AT-AT foi desenvolvido após as Guerras Clônicas e o início da dominação imperial. O modelo mais clássico media 22,5 m de altura e era equipado com dois blasters médios e dois canhões laser pesados em sua cabeça, local onde também ficava a tripulação. Possuía em seu interior cinco Speedbikes modelo 74-Z (aquelas que aparecem em O Retorno de Jedi, na batalha em Endor), vários Rifles Blaster, minas de prótons e outros armamentos.

Tinha autonomia para carregar até 40 troopers, enquanto apenas três tripulantes eram necessários para pilotá-lo, havendo um piloto, um artilheiro e um comandante. Eram lançados por grandes lanchas de desembarque próximo ao campo de batalha, e, para o desembarque das tropas, ele se ajoelhava, abrindo uma rampa de assalto na parte traseira.

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Em batalha, o AT-AT é imponente e tem um efeito psicológico muito forte sobre as tropas inimigas, minando sua resistência. Uma grande vantagem do veículo, além da pesada blindagem, era sua adaptação a qualquer terreno da galáxia, o que o tornava muito eficiente do ponto de vista logístico (se descontarmos a questão da velocidade, de que trataremos mais adiante). Em Endor, por exemplo, por causa da densa vegetação, ele foi usado como transporte.

Havia vários modelos do veículo, com tamanhos variáveis, e, inclusive, um modelo denominado Elite AT-AT, dotado de maior poder de fogo, blindagem mais resistente e cor escura.

UM CALCANHAR DE AQUILES AMBULANTE

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Apesar de o AT-AT possuir tamanho poder de fogo e força, do ponto de vista prático e de eficiência ele é um completo desastre. Em primeiro lugar, com exceção da cabeça, todo o resto do corpo do veículo é vulnerável, e embora sua blindagem seja muito forte, não há nenhum armamento nas outras partes do aparelho, o que é um desperdício de tamanho espaço, já que defesas em outros pontos de seu corpo possibilitariam um raio maior de ataque, e afastaria os inimigos com maior eficácia.

Imitando um animal na forma e no comportamento, o AT-AT precisa VIRAR A CABEÇA se quiser focalizar e atingir um inimigo com suas armas. E seu pescoço não é lá muito maleável. O artefato possui, portanto, muitos pontos cegos, que permitem, por exemplo, a escalada de suas pernas e barriga para colocação de bombas, como Luke Skywalker fez na Batalha de Hoth. É muito fácil se aproximar do veículo sem que a tripulação perceba.

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“Que bom que ninguém nos seguiu, né, Comandante?”

Em segundo lugar, por ser um quadrúpede pesado, o AT-AT precisa estar permanentemente com três das suas quatro pernas no chão para poder se manter de pé. Ele se move um passo de cada vez, uma perna de cada vez. Dessa forma, se uma das pernas é avariada, veículo, tripulação e passageiros terão que permanecer parados até a chegada de socorro mecânico. Numa batalha, porém, esse reparo será praticamente impossível, e, como as patas do AT-AT geralmente são avariadas quando ele está se movimentando (é justamente lá que os inimigos miram), a queda é bem provável. Ou, então, mesmo que não caia, o veículo avariado ficará esperando ajuda por um tempo longo demais e os reforços que ele transporta farão falta no front.

Suas pernas grandes também são um enorme ponto fraco, pois não têm qualquer proteção nas juntas, e não possuem muita resistência contra naves como X-Wings, como foi mostrado em Rogue One, o que aumenta, e muito, as chances de destruição do aparelho.

Em terceiro lugar, e talvez o ponto mais importante: o gigante é LENTO DEMAIS, o que limita seu ataque e sua eficiência no transporte. A palavra “Transport” está NO NOME do artefato; logo, é esta a sua função primordial, sua razão de ser – e é justamente esta a sua maior falha.

atat-star-warsNum universo marcado por naves que se deslocam a grande velocidade, o AT-AT é de uma lentidão proibitiva. Como disse um amigo, até uma velhinha com andador consegue ultrapassar um AT-AT na corrida. Por isso, naves grandes têm que levá-lo até bem próximo da batalha para o início de sua ação (aumentando o risco de as naves serem abatidas), pois, se fosse largado muito longe, só chegaria quando a batalha tivesse terminado. Ou os inimigos, ao avistá-los, poderiam muito bem fugir – a pé.

Em quarto lugar, os AT-ATs são praticamente inúteis para o transporte de tropas, tanto por sua lentidão quanto pelo fato de que, para desembarque dos soldados, o monstrengo precisa se ajoelhar para a rampa de desembarque traseira ser aberta. Nesse meio tempo, ele fica mais vulnerável a ataques, e a lentidão atrasa a saída das tropas, facilitando o trabalho dos inimigos.

Por isso, naves teriam eficiência muito maior para o transporte de soldados, o que torna o AT-AT um grande desperdício e um tiro no pé das forças imperiais. Como boa parte das máquinas de Star Wars, ele foi criado desse jeito mais pelo seu impacto estético que pela funcionalidade (aliás, será que ninguém naquela galáxia distante ouviu falar de RODAS?).

Por tudo isso, percebe-se que, apesar de serem tão imponentes e poderosos, os AT-ATs têm poucos pontos a seu favor e muitos contra. É uma grande mancada dos engenheiros imperiais e, mesmo tendo autonomia para atuar em qualquer terreno da galáxia, em todos eles vai enfrentar os mesmos problemas e estar vulnerável nos mesmos pontos. Portanto, mesmo que um AT-AT seja imponente e possa causar muitos estragos nas linhas inimigas, não pode fazer nada contra inimigos preparados com naves de maior poder de fogo, ou tropas terrestres com experiência para aproveitar seus pontos fracos.