Alien: 40 anos de um clássico da ficção científica e do terror | Uísque Envelhecido 004

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
10/05/2019

[Este é um post da seção Uísque Envelhecido, em que os garçons desta Taberna oferecem doses generosas de destilados culturais que já saíram há algum tempo das prateleiras de lançamentos, mas nem por isso deixarão de ser consumidos no nosso estabelecimento]

O Senhor D, nosso especialista em terror, horror, suspense e demais viagens às zonas cerebrais onde são produzidas as sensações de medo e pavor, costuma dizer que sexta-feira é dia de postar conteúdo assustador.

Como o nosso distinto garçom está ocupado em uma pesquisa de campo na Transilvânia, coube a mim escrever o post de hoje e, vejam só, é sexta-feira. Não que seja necessariamente sexta para você, que está lendo agora. Talvez você tenha chegado a este texto em uma quinta ou num domingo ou, vá lá, numa outra sexta que não esta em que escrevo estas mal traçadas linhas, mas o ponto é que inicio o post precisamente no dia da semana em que, conforme os entendidos, cai bem sentir um pouco de medo.

Pois bem, ocorre que eu não gosto, nem um pouco, de sentir medo. Não me atraem histórias de horror e suspense. Por isso escolhi tratar, neste post da seção de uísques envelhecidos da nossa estante de destilados culturais, de um filme que une o mundo do terror ao meu universo artístico favorito: a ficção científica.

Completa 40 anos, em 2019,  Alien, clássico de Ridley Scott lançado em 1979 e que é um daqueles filmes-paradigma, que se tornam referência e influência para tudo que se cria depois deles. É, também, uma obra polivalente, capaz de ingressar tanto no panteão dos grandes filmes de sci-fi quanto no dos maiores clássicos do terror. Trata-se de um puta filme de ficção científica E de um filme arrepiante.

Cito, aqui, os principais elementos que me deixam de queixo caído ao rever esta obra-prima:

UMA HISTÓRIA ATERRORIZANTE

Se o leitor, ao contrário de mim, gosta de sentir medo vendo filmes de terror, Alien é a opção certa para aquela sessão da meia-noite na próxima Sexta-Feira 13. O clássico de Ridley Scott tornou-se referência no gênero, ao colocar em cena (e, durante muito tempo, fora de quadro) o Xenomorfo, um dos mais icônicos monstros não só do cinema, mas de todas as artes.

Já desde antes de o alien que dá nome à obra se dar a conhecer, o filme nos coloca numa jornada de tensão crescente pelas profundezas do desconhecido. O desembarque da tripulação do cargueiro Nostromo em um planeta inóspito para responder a um sinal de alerta é a primeira de uma série de situações assustadoras para personagens e espectador.

Observe a cena do frame acima. Tudo de ruim no filme acontece porque a tripulação da Nostromo violou a regra número 1 dos viajantes do espaço: se você estiver explorando um planeta desconhecido onde uma nave naufragou e de repente se descobrir no meio de um ninho cheio de enormes ovos bizarros, SAIA CORRENDO. E NÃO OLHE PARA TRÁS

Uma vez que você desobedece essa regra de ouro, claro que vai dar merda: um enorme crustáceo alienígena vai saltar na sua cara e, levado para sua nave junto com o seu corpo inerte, cumprirá seu bizarro e assustador ciclo de vida, fazendo o próprio parto da maneira mais macabra possível: explodindo sua barriga.

Após o susto, a tripulação da Nostromo se vê num pesadelo: está solta pelo cargueiro uma criatura que se desconhece e, o pior: que não pode ser ferida (como se descobriu na tentativa de intervenção no FaceHugger, se o monstro “sangrar”, seu sangue absurdamente corrosivo perfura o casco da nave e uma nave vazando no vácuo é um lugar onde você definitivamente não quer estar).

Para agravar a situação, a Nostromo não é um veículo asséptico e bem iluminado como a Discovery de 2001, mas sim escuro e cheio de reentrâncias, protuberâncias  e corredores tortuosos onde o monstro pode se esconder. Sem contar os sons de alarme e as luzes amarelo-piscantes que só confundem tudo – além da sensação de claustrofobia: os astronautas estão presos em uma nave no meio do espaço sideral e não têm pra onde fugir.

A aterrorizante viagem dos tripulantes da Nostromo, caçando e ao mesmo tempo sendo caçados por um Oitavo Passageiro que é puro instinto assassino, tornou-se um dos mais célebres enredos de terror, importalizando a luta pela sobrevivência da oficial Ellen Ripley, a personagem que tornou Sigourney Weaver um ícone do cinema.

DISTOPIA

Alien ajudou a redefinir o padrão visual da ficção científica no cinema.  Se, no já citado clássico 2001, as naves eram branquinhas, imaculadas, bem iluminadas e limpinhas, com tripulantes sempre de barba feita e cabelo penteado jantando refeições instantâneas, a Nostromo de Alien é feia, suja, escura… é um veículo de carga de minérios e por isso seus tripulantes são caminhoneiros espaciais: grosseiros, mal vestidos, sujos.

O filme de Scott também expõe uma visão pessimista do futuro (um viés que ele revisitaria três anos mais tarde, com o lançamento de Blade Runner), com corporações dominando a exploração do espaço, e a obra dá destaque a um ponto bem humano das viagens interplanetárias: o conflito de uma tripulação dividida em castas. “Por que eles ganham o dobro do nosso salário?”, pergunta o técnico negro Parker ao se referir aos oficiais mais graduados. Além disso, Parker passa os primeiros minutos do filme querendo discutir o pagamento dos bônus da viagem e dizendo coisas como “Isso não está no meu contrato”.

Também é marcante, como plot distópico, o papel na trama do computador Mother, uma inteligência artificial de misteriosos desígnios, responsável por garantir os interesses da corporação e operado a partir de uma sala inacessível a quase toda a tripulação.

Quando Ripley consegue acessar o terminal do cérebro eletrônico, descobre a ordem especial 937, que basicamente determina que a prioridade da missão é levar o espécime alienígena com vida para ser analisado pela companhia, mesmo que isso signifique a morte de toda a tripulação, definida como “dispensável” .

Ajuda muitíssimo, na construção da assustadora atmosfera do filme, essa certeza de que as personagens estão lutando não apenas contra uma enigmática e desconhecida força da natureza, mas também contra uma kafkiana estrutura corporativa.

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Pela sua concepção visual, pela dimensão humana apresentada, pela visão paradigmática de futuro, pelo suspense bem construído e conduzido, pela explicação e pela não explicação, na medida certa, dos elementos do enredo , Alien merece lugar de destaque panteão dos filmes fundamentais de ficção científica e do terror.