Ad Astra: uma jornada aos confins de nós mesmos

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
30/09/2019

Ad Astra, o filme em que Brad Pitt viaja às profundezas do Sistema Solar para exorcizar os fantasmas que habitam sua mente desde o desaparecimento do pai (como missão secundária, ele também tenta salvar a humanidade), inscreve-se no rol das obras que representam meu tipo preferido de ficção científica: aquele em que a especulação sobre os usos futuros da tecnologia é mero pano de fundo para indagações sobre nós mesmos e nosso lugar no universo. 

É precisamente isso que permeia toda a jornada da personagem de Pitt, o Major Roy McBride: o filme dirigido por James Gray é uma história sobre como a exploração do espaço e o contato com os mistérios do universo impactam na mente e na vida das pessoas.

ERA ÉDIPO ASTRONAUTA?

Não por acaso, um dos mais onipresentes avanços tecnológicos utilizados como elemento narrativo em Ad Astra é um dispositivo de avaliação psicológica que permite diagnosticar instantaneamente o estado mental do paciente, ao cruzar o conteúdo da sua fala com os sinais vitais do seu corpo. 

O astronauta Roy McBride era uma espécie de campeão nesse jogo, pois, por mais estressante e emergencial que fosse a situação, jamais perdia o prumo e sempre conseguia manter-se frio e estável do ponto de vista psicológico. Filho de uma lenda do programa espacial, o desbravador do cosmo Clifford McBride (interpretado por Tommy Lee Jones), Roy começa a ter dificuldades nos testes quando depara com a possibilidade de que o Clifford, dado como morto após uma malograda expedição a Netuno, esteja não apenas vivo, mas ameaçando a sobrevivência da humanidade com um bombardeio energético.

É então que descobrimos que toda aquela calma e fleuma de Roy em situações limite são apenas uma fachada e que todas as angústias, pressões e traumas gerados pela ausência do pai estão lá, enclausuradas numa dura cápsula que é rompida pelo súbito reaparecimento de Clifford. Uma outra personagem de presença fugaz em tela, a ex-namorada Eve (vivida por Liv Tyler) exerce na trama o papel de evidenciar que, apesar de ter tornado Roy o astronauta ideal, essa estratégia psicológica do protagonista de evitar o contato com a dor da perda também fez dele uma pessoa solitária e incapaz de criar vínculos emocionais.

A colisão, de potencial catastrófico, de Roy com as questões antes encapsuladas num cantinho obscuro da sua mente – primeiro ao deparar com a fúria homicida de macacos-cobaia e ver neles um traço do pai, depois ao descobrir a verdade sobre o destino do Projeto Lima, a expedição fracassada em que Clifford desapareceu anos antes – é o ponto de partida da sua jornada pessoal, uma jornada em que o Édipo espacial encarnado por Pitt precisa baixar todos os escudos térmicos da sua nave psíquica e mergulhar no espaço profundo. 

Numa das cenas que considerei mais belas e significativas, Roy está em um lago subterrâneo de Marte nadando para tentar chegar à base de lançamento e pegar uma carona não autorizada na nave que o levará até Netuno. Na escuridão total daquele útero metafórico, preso ao seu objetivo apenas por uma corrente que faz as vezes de cordão umbilical, nosso Édipo se questiona sobre a própria semelhança com o pai e luta para chegar à superfície e à luz como uma pessoa capaz de confrontar a imensidão do Sistema Solar sem sucumbir aos seus perigos metafísicos, como foi a triste sina de Clifford antes dele. 

UM SCI-FI PÉ NO CHÃO

O futuro de Ad Astra é um futuro próximo, crível e coerente do ponto de vista tecnológico – se aceitarmos que se trata de um cenário em que está banalizada uma tecnologia que hoje é inexistente. A humanidade coloniza a Lua e Marte e desenvolveu um sistema de propulsão capaz de chegar a Netuno em menos de três meses. Como a nave Cepheus faz isso é algo que não é dito – e nem precisa, já que se trata de uma obra sobre a relação das pessoas com o mistério da vida, e não um documentário sobre o futuro dos motores. 

O mais interessante no filme é que todas as evoluções tecnológicas mostradas cumprem uma função na jornada psicológica de Roy. E é para isso que estão lá – além, é claro, de nos brindar com belíssimas imagens. 

A experiência quase trágica do protagonista na Antena Espacial Internacional, na Terra, apresenta ao espectador toda a frieza e competência da personagem diante do risco de morte. A passagem pela Lua, além de nos inserir no pano de fundo político-econômico da trama, ao apresentar um satélite cheio de perigos como um Velho Oeste futurista, também funciona para que nosso herói confronte a moralidade herdada do pai com os rumos da sociedade. A abordagem da nave de pesquisa norueguesa “naufragada”, um evento aparentemente sem sentido para a missão de Roy, mais do que nos mostrar que se trata de um futuro em que governos e empresas realizam pesquisa médica com cobaias animais no espaço profundo, atua como gatilho psicológico ao expor o protagonista a um espelho para enxergar uma fúria que ele conhece de perto. A experiência na base marciana também é plena de significados. É lá que se realiza o “parto” do nosso Édipo, e fica evidente que a única forma de o protagonista exorcizar seus demônios é embarcando numa viagem de redenção e autoconhecimento aos confins do Sistema Solar.

(Se há algo que soa inverossímil em Ad Astra, não são os avanços tecnológicos mostrados, mas sim a inacreditável sorte do protagonista para sobreviver quando outros a sua volta morrem em situações de extremo risco. Mas tudo bem, vamos fazer de conta que Roy McBride é um favorito dos deuses incumbido de cumprir uma jornada heróica e por isso ele conta com uma ajudinha dos céus.)

O SENTIDO PROFUNDO DE AD ASTRA: PERSPECTIVA

Roy consegue, sozinho, encontrar Clifford e acertar as contas com seu Pai internalizado. E este processo de amadurecimento e evolução evidencia um dos sentidos profundos de Ad Astra, algo que aproxima o filme de James Gray de alguns clássicos da ficção científica: trata-se, em última análise, de uma obra sobre a nossa reação diante do encontro íntimo com a grandeza e a maravilha do universo. 

No caso de Clifford McBride e do Projeto Lima, esse encontro foi um grande anticlímax. O pai de Roy tinha ido até a fronteira da heliosfera à procura de resultados mais confiáveis (e menos influenciados pela poderosa interferência do Sol) para a busca por sinais de inteligências extraterrestres. 

No confronto com Roy, Clifford confessa que é este o objetivo último da sua vida, algo que, para ele, sempre tinha sido mais importante que a esposa e o filho: responder a seminal pergunta sobre se estamos sós no universo. Todos os dados colhidos pelo Projeto Lima indicam que, sim, estamos sozinhos no universo conhecido. Esta descoberta foi terrível para a personagem de Jones, que viu nisso um indício de que toda a sua busca – e, portanto, toda a sua vida – tinha sido vã. 

Roy, que faz aqui o papel de alter ego do espectador, encara as descobertas do Projeto Lima com muito mais maturidade e clareza de espírito: se não há outra forma de vida inteligente no universo conhecido, isso significa que somos únicos (pelo menos no universo conhecido) e, portanto, tudo que fazemos e vivemos deve ser filtrado por esse prisma: cabe cuidar melhor da vida e das relações que temos, justamente por serem as únicas que jamais teremos, e nossa busca última deve ser não pelo que está lá fora, mas pelo que está aqui, dentro de nós e em torno de nós. 

Em Ad Astra, o silêncio das estrelas indica que é a nossa voz interior que deve ser ouvida. E que a viagem mais extraordinária e mais importante é aquela para dentro de nós mesmos.