A polêmica da Slave Leia: um ponto de vista feminino

Redação A Taberna
Por Redação A Taberna
06/11/2015

Causou um ligeiro estardalhaço, em nossa fanpage no Facebook, a postagem de um artigo que o Ronaldo Gogoni escreveu para o Meio Bit (para ler o texto, clique aqui) sobre a decisão da Disney de não mais explorar comercialmente a imagem da Slave Leia, a princesa Leia mantida escrava pelo vilão Jabba e vestida apenas com um biquíni sumário.

Dos muitos comentários no post, a quase totalidade era de homens criticando a Disney, alguns deles negando a própria existência de machismo na sociedade. A nós, administradores homens da página, pareceu, no mínimo, desonesto que um tema que diz respeito principalmente às mulheres seja tratado quase exclusivamente por homens. Por isso, pedimos a uma amiga fã de Star Wars que nos trouxesse uma opinião feminina sobre o tema. Segue, abaixo, o artigo escrito por ela:

LEIA, MACHISMO E OUTROS BLABLABLÁS

Por Juliana Campani, jornalista, mulher, mãe, fã de Star Wars

Slave Leia, “aquela gostosa”, já era. A imagem da escrava sensual não será mais reproduzida pela Disney em material promocional. Fãs da saga divididos nas opiniões. Howard Wolowitz não deve ter aprovado. E como a mulher destemida foi reduzida a símbolo sexual, destaque no cartaz do filme O Retorno de Jedi? Culpa de um trecho, na minha opinião, sem muito fundamento. Leia, até então retratada com dignidade e altivez, torna-se escrava de Jabba, aquela grande larva alienígena. E vem o tenebroso biquíni que só esconde o mínimo.

slave leia

Na primeira vez em que vi o episódio, lembro de emitir um “ahhhh” de descontentamento. Pronto, virou palhaçada. Não podiam deixar a moça vestida. Não podiam? De verdade? Que impacto para a trama teve a seminudez de Leia? Qual a finalidade de sensualizar uma personagem no meio de um momento de tensão na história? Num exercício mental, imagino a cena: George Lucas e Lawrence Kasdan trocando uma ideia sobre o roteiro, a proposta inicial seria Leia resgatar Han Solo, até que alguém deve ter mencionado “hey, mas ela é uma mulher” (Lucas ou Kasdan?) e concluiu-se que o melhor era tirar suas roupas e torná-la prisioneira, uma sequência mais condizente com a “realidade” (porque, né, mulheres são frágeis e elas que devem ser resgatadas e blábláblá). E, desde então, a personagem é retratada muitas vezes assim, na sua mais lamentável apresentação.

leiaAs coisas vão mudar, dizem os novos responsáveis pelo marketing. A imagem de Leia escrava pelada não será mais explorada comercialmente. Mas o estrago já está feito. Fixada no imaginário dos admiradores de Star Wars está uma mulher fragilizada e reduzida a peça de entretenimento. Tão cristalizada que o anúncio de que Leia não seria mais representada na forma sensual causou descontentamento de muitos, que dizem “defender o legado” da saga. Vários reclamam da opressão do “politicamente correto”. Uma coisa que não faço mais (inclusive por recomendações médicas) é ler comentários em posts. Acreditem, não há nada lá que valha os segundos perdidos. Mas dei uma espiada nas críticas (de homens) e não deixo nunca de me surpreender com a falta de bom senso e de capacidade de empatia. Questionar o óbvio virou coisa de “feminazi”. Não vender mais bonequinhas da Slave Leia tornou-se um “ataque à memória do filme”.

Não, não se trata de apagar um legado. O filme não será afetado. É apenas uma questão de justiça. A própria Carrie Fisher já deixou bem claro que a desagrada o tal “legado”. Ficar seminua não somou nada à história, não contribuiu para seu trabalho de atriz, mas, infelizmente, foi o que mais marcou. Enfim, uma bola fora que não teve sentido e que pode e deve parar de repercutir. Então por que raios a polêmica? Porque se trata de enfrentar uma postura sempre sexista de diminuir a mulher? Nem acredito que os responsáveis pela decisão foram tão longe no raciocínio mas, de qualquer forma, é algo positivo. E o impacto que isso causou evidencia o atraso em que nos encontramos, o quanto temos de evoluir e traz à tona a necessidade de reflexões importantes. Temos, até hoje, uma representação muito sexualizada das mulheres na ficção de heróis e heroínas, no videogame. De She-ra a Lara Croft, de Shena, a princesa guerreira, a Alice de Resident Evil, todas muito poderosas mas sempre muito sexy. A explicação mais fácil: são peças de entretenimento voltadas para o público masculino. Nada mais injusto e ultrapassado. E acho que sim, está mais do que na hora de começar a derrubar os estereótipos das gostosonas no cinema, nos quadrinhos, nos games. Mas isso é assunto para outro momento.

Por enquanto, podemos vibrar com a pequena vitória. Leia merece mais, Carrie Fisher merece, as mulheres merecem.