A importância do protagonismo de Rey em Star Wars

Ana Melo
Por Ana Melo
24/12/2015

Desde que saíram as primeiras imagens de produção e o trailer de O Despertar da Força, fiquei animada com a ideia de uma protagonista mulher. Ao sair do cinema, animada e emocionada como tantos fãs, não pude deixar de falar: “O ‘Girl Power’ é forte nela”!

spoiler-alerta

star-wars-empire-1O fato de a franquia colocar uma mulher como protagonista, por si só, já é um grande avanço. Porém, antes mesmo de se descobrir capaz de usar a Força, Rey já aparece como uma personagem forte e independente. Ela é introduzida no filme como catadora de sucata, sua forma de sobrevivência em Jakku, onde vive sozinha, esperando a improvável volta de sua família. Quando Finn a encontra pela primeira vez, Rey está sendo atacada, defendendo o droide mais fofo do universo, BB-8. Ao avistar a “dama em perigo”, Finn, como bom herói, corre para socorrê-la, mas antes de chegar lá, Rey já deu conta sozinha. Finn a observa, impressionado. “Sempre o tom de surpresa!”, como diria Rony Weasley. Esse olhar de admiração e incredulidade se repete várias vezes durante o filme, tanto por Finn quanto por outros personagens, como Han Solo, impressionado pela habilidade de Rey também como piloto na Millennium Falcon.

É também através dos detalhes que o filme desconstrói estereótipos femininos. Em meio a explosões, Finn começa a correr e agarra a mão da garota para puxá-la consigo – uma cena aparentemente comum e bastante usada (Doctor Who que o diga!), mas Rey não deixa passar: “Eu sei correr sem dar a mão!”.

Outro aspecto interessante da personagem é que o filme não sugere a possibilidade de um romance entre os dois principais. Pelo contrário, em uma cena, Rey até beija Finn na testa e o chama de amigo. É verdade que colocar um relacionamento no filme não é algo necessariamente ruim. No entanto, ele pode se tornar um problema ao limitar a personagem feminina e seu desenvolvimento individual e também quando todas as personagens femininas que são introduzidas logo se tornam um interesse romântico para um protagonista homem (o que acontece em The Big Bang Theory, por exemplo).

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Pensando nas outras trilogias: logo no começo de Uma Nova Esperança, Leia Organa é percebida tanto por Luke Skywalker quanto por Han Solo como um possível interesse romântico e, em O Império Contra-Ataca, muitas de suas cenas são diálogos com Solo. De forma semelhante, nos Episódios I, II e III, Padmé, embora também uma personagem forte e com um papel importante – como rainha e, depois, senadora –, desde cedo aparece como interesse amoroso de Anakin Skywalker, até porque já partimos do pressuposto de que, por se tratar de uma prequela, alguém na trilogia precisa ser a mãe de Luke.

Bem, você pode perguntar, então Rey é uma personagem melhor do que Leia ou Padmé? Não é bem assim. Embora, certamente, O Despertar da Força tenha avançado em vários aspectos, é importante considerar a importância de cada personagem em contextos diferentes.

A princesa Leia foi, indiscutivelmente, um modelo para as fãs em uma época com menos personagens femininas fortes do que hoje. A mulher que, em um primeiro momento, aparenta ser uma clássica “dama em perigo”, na verdade se mostra corajosa, audaciosa e sem medo de falar o que pensa. É claro que ela tem vários poréns – é impossível não lembrar do maldito biquíni, por exemplo, que muitos ainda defendem. (Há quem diga que ele era para reforçar o ódio/nojo por Jabba, mas duvido que a primeira coisa que passe na cabeça de quem assiste à cena seja “nossa, esse cara realmente é mau!”). Com Padmé, a franquia também avançou, ao colocá-la em um cargo político importante, por exemplo, embora também tenha pontos fracos, como a dependência de seu enredo em relação a Anakin, o que me leva ao próximo ponto.

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O grande problema presente nas duas trilogias é o fenômeno conhecido como Smurfette Principle. Baseado na personagem do desenho Os Smurfs, o princípio aponta algo recorrente nos filmes: a existência de apenas uma personagem mulher em meio a vários homens. Dessa forma, a personagem “Smurfette” não tem outras mulheres com quem interagir, de sorte que “os garotos definem o grupo, sua história e seus valores. As garotas existem apenas em relação a eles”, conforme explicou a jornalista Katha Pollitt em seu artigo sobre o assunto no jornal The New York Times.

Em Star Wars, não é diferente. De fato, um vídeo da New York Magazine  juntou todas as falas de personagens femininas na trilogia clássica de Star Wars – com exceção de Leia. Somadas, elas resultam em 63 segundos. “Bem, mas essas personagens são apenas secundárias, claro que elas não vão ter muito diálogo”, aponta uma pessoa nos comentários. Exatamente. A ausência de outras mulheres na saga é realmente preocupante, pois ficamos apenas com Leia, na clássica, e Padmé, na nova, para representar um grupo que, na vida real, inclui metade da população.

Mesmo que em passos pequenos, O Despertar da Força é um avanço também nesse sentido. Ter Rey e Leia – não mais princesa, agora general! – possibilita diálogos entre as duas mulheres, fugindo do foco em personagens masculinas. Vale lembrar também da Capitã Phasma, a stormtrooper feminina da Primeira Ordem – quem disse que as mulheres não podem também ser do Lado Negro? E, ao contrário do que normalmente vemos (principalmente em jogos), sua armadura não é curta ou decotada, mas de fato protege seu corpo, como as masculinas.

Veja também:

> A polêmica da Slave Leia: um ponto de vista feminino

Lendo comentários de postagens sobre a Rey (nunca uma boa ideia, mas eu insisto), vi pessoas reclamando de que colocá-la como protagonista seria uma jogada de marketing, já que o público feminino da franquia está crescendo. Bem, se o for, por que isso seria um problema? Há décadas, os produtos nerds são direcionados a homens e acabam reproduzindo sexismo em seu conteúdo, o que pode, inclusive, afastar as mulheres desse universo, formando uma grande bola de neve. Mesmo assim, há garotas se interessando por filmes, jogos e séries originalmente destinados a meninos. Então, se os produtores perceberam isso e estão adaptando o conteúdo para ser mais atrativo a todos os públicos, tanto melhor!

Como o Eduardo escreveu em sua resenha do filme: “Star Wars é a representação do que a gente queria ser e fazer quando era criança; é o tema das nossas melhores brincadeiras infantis”. Ou seja, tudo isso tem uma consequência muito importante na vida real: representatividade.  Assim, a inclusão de novas personagens femininas fortes à série nos mostram que não precisamos ter sempre o mesmo papel, mas ser o que quisermos: seja princesa, rainha, senadora, general, capitã – e até Jedi!