A Colina Escarlate: frivolidade que a beleza ofusca

Senhor D
Por Senhor D
21/10/2015

Edith Cushing, a protagonista, quer ser escritora. Traz em manuscrito uma história com fantasmas. Ela deixa bem claro, não é uma história de fantasmas ou sobre fantasmas, é uma história com fantasmas. Os fantasmas, explica, são apenas metáfora, representações do passado. Em A Colina Escarlate (2015), Guillermo del Toro faz o mesmo que sua principal, constrói um filme com fantasmas, não sobre eles.

Na nova empreitada do diretor mexicano, os fantasmas são alegoria, quase inofensivos. Monstros em aspecto, e só. Almas apegadas à vida da qual foram aspiradas de maneira criminosa. Apego semelhante ao que motiva os herdeiros da família Sharpe, os irmãos Thomas e Lucille, a partirem da Europa rumo à América em busca de dias melhores.

É no outro lado do Oceano que depositam a esperança de conseguir os recursos necessários para salvar o que lhes resta de valioso, no caso, uma propriedade decrépita e imponente, suvenir de tempos prósperos que se foram. Na viagem, Thomas Sharpe não consegue os investimentos que precisava, porém, não volta de mãos vazias. Recém-casado, traz consigo a esposa norte-americana, a jovem Edith Cushing.

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Erguida sobre a argila mais vermelha, a velha mansão reúne sob o mesmo teto Lucille, Thomas e Edith. Entre as paredes da construção decadente, o mistério se desenrola entre rangidos, sussurros e a expectativa do eminente susto em meio às sombras.

O “mistério”, entretanto, agoniza na previsibilidade de um roteiro linear e simplório. O que vemos, durante duas horas, é uma história rasa camuflada em espetáculo visual, uma trama sem surpresas, sem clímax, encenada à frente de um plano de fundo deslumbrante — daqueles que o Del Toro é mestre em criar –, óbvia demais para manter suspense.

O trio principal do elenco, formado por Tom Hiddleston (Os Vingadores), Mia Wasikowska (Alice no País das Maravilhas) e Jessica Chastain (Interestellar e Perdido em Marte), decepciona, com exceção da última, de atuação mais consistente — a razão, talvez, seja porque somente a sua personagem ostente certo grau de perturbação, de desordem emocional — mas que, ainda assim, sucumbe à frivolidade do enredo.

Apesar dos evidentes aspectos negativos, A Colina Escarlate não é filme descartável, ainda que tampouco seja memorável. É por ficar no “quase bom” que Del Toro desilude o espectador. Dedicado em demasia ao cenário feérico, o homem que nos trouxe O Labirinto do Fauno se ofusca nas belas sombras e mariposas que nos joga aos olhos — nada que não possa piorar na cafonice do desfecho.

Cotação:

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