2001: Uma Odisseia no Espaço – o sci-fi definitivo?

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
31/07/2018

O filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, lançado em 1968 (MIL NOVECENTOS E SESSENTA E OITO!), é figurinha carimbada em qualquer lista das melhores obras de ficção científica de todos os tempos. E talvez seja o clássico que melhor resistiu à passagem do tempo, chegando aos 50 anos ainda atual, ainda instigante e ainda futurista.

Contribuem para essa jovialidade tanto o cuidado técnico quanto a proposta estética quanto o roteiro econômico e a mensagem enigmática. Trataremos a seguir de cada um desses pontos.

UM DESAFIO (VITORIOSO) AO TEMPO

É comum que filmes de sci-fi tornem-se “obsoletos” depois de alguns anos, seja por errarem nas “previsões” científicas e tecnológicas, seja por obsolescência do padrão estético escolhido. Mesmo um clássico ainda cultuado como Alien, de Ridley Scott (um filmaço, frise-se), me parece ter “envelhecido” um pouco com seus terminais de computador que parecem velhas máquinas de escrever. Já as escolhas estéticas de Stanley Kubrick para 2001 resistem todas ao passar das décadas. Revemos o filme em 2018 e suas naves, seus computadores, sua estação espacial continuam apontando para o futuro.

O único ponto em que o clássico de Kubrick tornou-se obsoleto foi na questão geopolítica. O roteiro reproduz o contexto de disputa por hegemonia global entre Estados Unidos e União Soviética. Ainda assim, essa rivalidade ocupa um papel secundário e, neste quesito, o filme de 1968 é menos datado que sua sequência (“2010: O ano em que faremos contato”, lançado por Peter Hyams em 1985 e baseado no romance de Arthur C. Clarke), que coloca a questão da Guerra Fria como elemento central do enredo.

UM SCI-FI METAFÍSICO

Boa parte do sucesso de 2001 em seu desafio ao tempo está no fato de a obra apresentar mais perguntas que respostas. Em vez de entregar didatismo e explicações prontas, nos convida a um mergulho no desconhecido.

O livro e o filme 2001 são gêmeos, nascidos de propostas ligeiramente diferentes do escritor Arthur C. Clarke e do cineasta Stanley Kubrick a partir, principalmente, de um conto de Clarke chamado A Sentinela. O plot central é a descoberta, na Lua, de um artefato de origem extraterrestre que foi deliberadamente enterrado lá à nossa espera, como que para auferir quando a humanidade estaria pronta para dar um salto em direção às estrelas e a uma nova forma de existência.

No filme, a descoberta realizada na cratera Tycho trata-se de um artefato comumente chamado de “o Monolito”, um bloco retangular de um preto fosco semelhante ao que aparece na tela fomentando, muitos milênios antes, a evolução dos nossos ancestrais hominídeos na direção do Homo sapiens. No livro de Clarke, esses misteriosos artefatos são um pouco diferentes.

Esta dualidade de planos narrativos, esta articulação entre o que aconteceu na África em tempos pré-históricos e os eventos do futuro da exploração espacial são cruciais para captarmos a mensagem do filme.

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2001 é uma obra de silêncios eloquentes. O primeiro ato, que mostra a muda (porque ainda não existiam palavras) transformação do hominídeo em homem sob a égide do misterioso Monolito, é narrado primeiro por imagens e depois pelo uso inteligente da trilha sonora. O protagonista do prólogo (que no livro de Clarke chama-se Moon-Watcher – Amigo da Lua, na edição brasileira que li) aprende a usar ossos pesados para matar animais e outros hominídeos enquanto ouvimos ao fundo a música instrumental “Assim Falou Zaratustra”, de Richard Strauss.

“Assim falou Zaratustra” é também o título de uma obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche que fala sobre o surgimento do Übermensch (geralmente traduzido como “super-homem” ou “além-do-homem”). “O homem é uma corda esticada entre o animal e o super-homem: uma corda por cima do abismo; perigosa travessia”, escreveu Nietzsche.

Kubrick nos mostra como o hominídeo que aprendeu a usar tacapes e sua tribo deram o primeiro salto dessa travessia – de animal para homem. Ao fim do primeiro ato, o osso que permite à tribo comer carne e fazer guerra se transforma em nave espacial – uma elipse que resume milhares de anos de história da técnica – e a trilha épica de Richard Strauss muda para a valsa de outro Strauss, o Johann, mostrando o suave balé de um foguete de passageiros da Panam que ruma para uma enorme estação espacial circular (aliás, este é outro elemento datado do filme, pois a outrora gigante companhia de aviação de passageiros desapareceu antes de poder operar linhas comerciais para o espaço).

Ao acompanharmos a viagem do burocrata Heywood Floyd até a base lunar de Clavius e em seguida sua inspeção ao Monolito de Tycho, somos apresentados ao principal plot do filme: o misterioso artefato alienígena envia um sinal para algum lugar na órbita de Júpiter, o que motiva uma expedição científica a bordo da nave Discovery para investigar o caso.

O desfecho dessa jornada às profundezas do Sistema Solar, o final enigmático e múltiplo de sentidos é uma das razões para o caráter permanente e grandioso do filme. O Monolito que o Comandante Bowman encontra na vizinhança de Júpiter se revela um portal para o infinito, uma plataforma para um novo salto evolutivo do homem, que também é um mergulho para dentro de si mesmo. Bowman cruza a barreira do espaço e do tempo e renasce como um embrião do que o homem pode vir a ser – e ouvimos de novo a trilha de Richard Strauss evocando a obra de Nietzsche.

“A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação.(…) Assim falou Zaratustra”.

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O SEXTO PASSAGEIRO

Entre a transição de animal para homem e a mudança de homem para super-homem, temos a viagem de milhões de quilômetros da Discovery até Júpiter. E o convívio dos astronautas Dave Bowman e Frank Poole (outros três pesquisadores hibernam em sarcófagos) com o computador inteligente HAL 9000, que é um dos protagonistas do filme.

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Curioso, eloquente e um tanto vaidoso da própria inteligência, HAL controla as funções da nave e é o único a saber de todos os parâmetros da missão. E é justamente por um conflito entre essas diretrizes que o computador “enlouquece” e se põe a tentar matar os tripulantes com método e obstinação que beiram a psicopatia.

O conflito entre homem e máquina é um dos pontos altos do filme – e o antológico desfecho desse confronto, em que HAL implora a Bowman que não o desligue, é, pra mim, um dos grandes momentos da história do cinema.

DELEITE VISUAL

O apuro da equipe de Kubrick com a estética é um dos elementos que fazem de “2001” uma obra tão importante. Como diz meu amigo André Ribeiro, “praticamente cada quadro do filme pode ser emoldurado e pendurado na parede”.

Aqui, deixo que as imagens falem por si:

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2001 odisseia no espaco discovery

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2001 odisseia no espaco quarto hotel

2001 odisseia no espaco osso

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2001 odisseia no espaco dave hal

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O ano 2001 passou e a previsão de Kubrick e Clarke se revelou excessivamente otimista. Não temos base na lua, nem uma estação espacial tão grandiosa como aquela enorme roda que gira em torno do próprio eixo, nem voos comerciais para o espaço, nem qualquer esperança de chegar tão cedo às cercanias de Júpiter em missão tripulada.

As naves assépticas e o progresso ordeiro do filme e do livro deram lugar, a partir dos anos 80, a uma visão pessimista e distópica do futuro, tanto nas projeções sociopolíticas quanto na literatura e no cinema de ficção. Mas o clássico de 1968 persistirá, provavelmente por muito tempo ainda, como uma das mais belas e instigantes histórias da ficção científica.