As Crônicas de Geada e Fogo de Chão – Capítulo 6

Redação A Taberna
Por Redação A Taberna
07/02/2018

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> Capítulo 5 (Sandra): A Prometida Chega a Porto dos Casais

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CAPÍTULO 6 (TITO): UM TITÃ NO TOPO DO MUNDO

Depois de ter vivido vinte e oito anos na pele de um anão, Tito Leindecker já estava bem ciente da impressão que causava nas gentes, por isso não estranhou os olhares de curiosidade e os risos de gozação ao longo do caminho do Sobrado Negro até a Grande Taipa.

Em vez de prestar atenção aos risinhos e inticadas dos patrulheiros perfilados que miravam o cortejo de cavaleiros que avançava a pé, Tito só tinha olhos para a taipa. Maior construção do mundo inteiro, o maciço muro de pedras de quase cinquenta metros de altura e incontáveis quilômetros de extensão serpenteava pelas bordas dos peraus e pelas colinas do topo de Pâmperos, marcando a divisa entre as terras civilizadas habitadas pelos gaúchos e o lugar sem nome e sem Deus que era chamado simplesmente de Pra-Lá-Da-Taipa. Não havia em todo o Continente um ponto mais alto que o topo da Grande Taipa e era lá que ele, O Toquinho de Amarrar Bode, queria subir, para, ao menos uma vez na vida, ser mais alto que todos os demais pampeanos.

O Leindecker não subiu sozinho; acompanhavam-no na grua, erguida por grossas cordas de cânhamo, o Senhor Comandante dos Sentinelas, Seu Jair Moreira, o Primeiro-Sentinela, Seu Benjamin Fagundes, e João Gaudério, o filho ilegítimo de Dom Neco Fagundes para quem a Grande Taipa seria daquele dia em diante o novo lar.

A subida até o alto, que não era barbada nem para um sentinela experiente, podia ser um senhor cagaço para um visitante. A grua de madeira e arame era puxada até lá em cima por um mecanismo de roldanas movido por uma roda girada pacientemente por dois parrudos bois de canga. A cada giro completado pela junta, a grua era puxada mais um pouco – e o vento enregelante dos Campos de Cima fazia a cápsula sacudir mais a cada metro que se subia.

Quando chegaram, enfim, ao topo, tanto João Gaudério quanto Tito Leindecker estavam mais brancos que veste de bebê no dia do batizado. O comandante e Benjamin se afastaram para sabatinar os vigias daquele turno e deixaram os visitantes a sós. Depois de sair da grua e caminhar até a metade oposta da Grande Taipa – que era larga o bastante para pelo menos seis cavaleiros trotarem lado a lado em seus pingos -, Tito, de costas para Pâmperos, contemplou a imensidão do vazio Pra-Lá-Da-Taipa, abriu a braguilha e se pôs a mijar.

— O que tu tá fazendo? — perguntou Joãozinho, que tinha se encostado no parapeito ao lado de Tito.

— O que parece que eu tô fazendo? Prestando a homenagem dos Leindecker aos territórios selvagens — retrucou o anão.

João Gaudério virou a cabeça para o leste e estreitou os olhos, para tentar enxergar o Mar Imenso no lusco-fusco do entardecer.

— Foi de lá que vieram os teus antepassados, né? — perguntou a Tito, indicando com a cabeça o lado do mar.

— Os meus e os de todo pampeano que não seja herdeiro dos bugres que matamos com tanto apetite — disse o pequeno Leindecker, que, ao ver a expressão de contrariedade no rosto de João, emendou: — Isso a se crer mais nos livros que escreveram sobre o tema que nos causos que as velhas contam nos galpões. Sei o que te contaram, mas não creia nessas histórias. Todo povo tem uma origem; os gaúchos não são gaudérios, Gaudério.

João fechou a cara e se afastou.

— Que foi? Não posso te chamar de Gaudério? Por acaso teu pai dividiu contigo o sobrenome dele?

João Gaudério se virou, a mão da adaga tremendo.

— O que um Toquinho de Amarrar Bode sabe sobre isso?

O anão deu uma bufada e em seguida arreganhou os dentes e respondeu, bonachão:

— Toquinho de Amarrar Bode, Pauzinho de Virar Tripa, Tampinha, Miúdo, Pitoco, Nanico, Bostinha, Nenê de Bombacha e outros tantos apelidos em alemão, se tu quiser que eu te diga. Acha que não sei de tudo que me chamam? Acha que é tu que tá me informando que eu sou um anão, que já não usei uma trena pra medir a minha altura?

João engoliu em seco e baixou a cabeça, enquanto o anão enfiou a mão no casaco e puxou uma garrafinha delgada.

— Tu precisa de uma graspa, Gaudério. Bebe comigo.

Encostados no parapeito, o bastardo e o anão sorveram o destilado, em generosos goles que queimavam a garganta e ajudavam a suportar todo o frio dos Campos de Cima e todas as injustiças da vida.

— Sabe como desarmar quem te xinga de ilegítimo, bastardo, enjeitado? — perguntou Tito. — Te chama assim tu mesmo, antes de te chamarem disso. Faz da gauderice a tua força e não a tua fraqueza. Quando alguém te chamar de Gaudério de má vontade, diga: “Sou Gaudério, sim, por isso não preciso de ninguém. E a tua mãe nunca reclamou do meu sobrenome”.

Os dois riram e terminaram a bebida enquanto Seu Jair Moreira e Seu Benjamin Fagundes voltavam da guarita e faziam menção de descer.

Mais tarde, no jantar no Sobrado Negro, Tito, como hóspede de uma casa ilustre, ocupou um lugar de honra na mesa do senhor comandante, enquanto João sentou com os demais recrutas em uma mesa lateral. A certa altura da noitada, quando estavam o visitante e os patrulheiros bêbados como gambás, um dos sentinelas, que estava provocando o anão desde o início da janta, perguntou se ele precisava de pinça na hora de mijar. Fez-se um silêncio e os comensais pararam de comer e de beber para ouvir a réplica de Tito.

O pequeno Leindecker, que segurava com uma mão um osso ainda carnudo de costela assada e com a outra uma caneca de cerveja preta, olhou de canto de olho para Joãozinho, deu uma piscada e respondeu ao atrevido em voz bem alta, para se certificar de que todo o salão ouviria:

— Tchê, tudo que posso dizer é que a tua mãe nunca reclamou.

Todas as mesas irromperam em estrondosas risadas.