AS Crônicas de Geada e Fogo de Chão – Capítulo 5

Redação A Taberna
Por Redação A Taberna
14/12/2017

SANDRA

Porto dos Casais: a escolha do nome da sua nova querência não podia ser mais apropriada, pensou Sandra Fagundes quando a carreta coberta em que viajava com suas damas de companhia e com a irmã Anita (isto quando a louquinha não estava troteando em sua égua de estimação com os peões da Invernêra, com as pernocas enfiadas naquelas pavorosas bombachas de montaria). Para a mocinha, a oportunidade de participar da vida social da Intendência, com todos os seus bailes e reuniões era algo que fazia o coração quase saltar da boca.

Tinha sido uma longa e aborrecida viagem dos Campos de Cima até os baixios onde tinha sido construída a capital. Choveu fino ao longo de quase todo o trajeto até Campo dos Bugres, e de lá em diante o tempo tinha melhorado, embora a cerração encurtasse a vista durante a maior parte das manhãs.

Lá por Morro Reuter, Sandra já sentia vontade de empurrar Anita de um perau, tal era o mau humor da irmãzinha quando precisava viajar na carreta, ocasiões em que só bufava por ser obrigada (Obrigada a trocar um cafundó pela capital, mas que barbaridade!, pensava Sandra) a deixar a Invernêra.

Só as visitas ao carretão de Dona Kirsten tinham amenizado o tédio da filha mais velha de Dom Neco Fagundes. Por três vezes, a esposa do Intendente a recebera para um café colonial e a tratara como se da família fosse. Nada mais apropriado, pois Sandra tinha sido prometida em casamento a Godofredo e um dia sentaria ao lado dele nos lugares mais nobres de Pâmperos. Tinha quase quinze anos e já começava a reparar nos rapazes – e o interesse parecia ser recíproco, embora ela ainda ficasse mais vermelha que topete de cardeal ao ser cortejada por algum ginete ou payador, o que tinha rapidamente deixado de acontecer desde que a mão da moça fora empenhada aos Teixeira.

Quando se aprochegaram da área central da cidade, a maior parte do comboio se dispersou tomando os rumos da Praça da Alfândega, mas os Teixeira, Fagundes e agregados subiram a Rua da Ladeira até a Intendência. Sandra, que tinha ficado de boca aberta desde que adentrara Porto dos Casais e vira o casario e as chaminés da zona industrial, ficou ainda mais extasiada ao ver as torres da Igreja Matriz e a imponência do edifício da Intendência, construído séculos antes por Bartolomeo Tabaréz, filho de Alfonso, O Conquistador.

Sandra foi instalada com Anita nos Alojamentos da Espora, a área destinada à Espora do Intendente e seus agregados. Do quarto, dava para ver, ao longe, as águas do Guaíba, o portentoso lago que desaguava, lá longe, no Mar Interior. Anita, como a irmã mais velha já esperava, odiou as novas instalações, mas Sandra sentia-se vivendo um sonho.

Naquela primeira noite, para honrar Dom Neco e oficializar a sua nomeação como Espora, Dom Roberto Teixeira ofereceu o mais rico banquete que Sandra já presenciara. A churrascada tinha costelão e picanha de gado, lombo e costela de porco, suculentas paletas de ovelha, salsichão e galeto. A carne era servida em grandes gamelas de madeira, com farofa, maionese de batata, aipim cozido, massa caseira coberta com farinha de mandioca torrada em banha de porco, cuca, chucrute e rabanete curtido. A mesa de sobremesas tinha grandes vidros de pessegada, doce de abóbora, doce de laranja, arroz de leite, sagu e ambrosia, e todo esse mistério de comida era regado a muita cachaça de Santo Antônio, vinho da Serra, cerveja da colônia. A Sandra e Anita, bem como às outras crianças, foi servido um suco de vinho, ralo e adoçado.

Mas o que mais encantou a futura senhora Teixeira foram os cantos e as danças. Trovadores e músicos munidos de gaitas e violões se apresentaram ao longo de toda a comilança, e após o jantar começou um animado fandango, em que Sandra pôde dançar com galantes ginetes, e, é claro, com seu prometido. Godofredo estava majestoso com a camisa de seda vermelha, a bombacha creme e o lenço branco ao pescoço. Suas botas, mui lustrosas, pisavam os taboões do assoalho do Salão Social da Intendência com desenvoltura. Quando a dança terminou, ele foi mui cortês e respeitoso com a noiva, que se sentou ao lado da irmã e deixou escapar um suspiro apaixonado.

— Ai, Anita, vou casar com o maior ginete do mundo…

A mais jovem dos Fagundes, que estava entretida com seu quarto prato de ambrosia, ergueu as sobrancelhas e respondeu, de boca cheia:

— Um piá de bosta, isso sim.

Sandra levantou, bufando, e foi se sentar com Dona Kirsten, sua futura sogra, que, embora estivesse mui séria, parecia rir com os olhos enquanto mirava Dom Neco Facundes. Um arrepio percorreu o corpo da filha do senhor da Invernêra, mas ela julgou que fosse apenas uma aragem entrando pela janela. Era a melhor noite da sua vida e, esperava, a primeira de muitas noites ainda mais maravilhosas. Estava prometida a Godofredo, herdeiro da Intendência e primogênito da união das Casas Teixeira e Leindecker. O que poderia dar errado?