As Crônicas de Geada e Fogo de Chão – Capítulo 4

Redação A Taberna
Por Redação A Taberna
06/12/2017

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Capítulo 1 (Neco): A Friagem Vem Vindo
Capítulo 2 (Catarina): O Destino Visita a Invernêra
> Capítulo 3 (Joãozinho): O Sentinela

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CAPÍTULO 4

DANIELA

Yaros estava majestoso quando veio buscá-la. Majestoso como ela merecia. Nunca mais, depois desse dia, precisaria se esconder ou depender da caridade  de velhacos como o Señor Ortiz para ter um teto e uma guampa de leite, foi o que matutou Daniela ao pegar a mão do noivo e caminhar com ele até o altar de pedra.

O chefe guerreiro tinha trazido toda a tribo para Libres. Mais de vinte mil cavaleiros e cavaleiras montados (“Os soldados que me darão Pâmperos de volta”, pensou a noiva), outros tantos bois e vacas trazidos das Terras Haraganas para serem negociados no Grande Mercado. Velhos e crianças acompanhavam o bando a pé. O cortejo do noivo, portanto, era incomparavelmente maior que o de Daniela, que contava tão só com o Señor Ortiz e sua pequena família, além duns agregados do comerciante e de Seu Jonas Moreira, o ginete de Cambará que até a véspera das bodas era desconhecido da noiva.

Jonas tinha chegado sozinho ao mercado Ortiz, montado em uma grande e portentosa égua gateada. Trazia uma carabina atada às costas por um tirante de couro marrom e, na cintura, um grande florete com bainha ricamente ornada. O poncho de lã era pintado no cinza escuro dos Moreira, com um broche de prata na forma da cabeça de graxaim da Casa.

Quando conseguiu ser levado a Daniela, o cavaleiro se apresentou e o nome foi por ela reconhecido de vereda. A princesa podia não ser mais que uma criança quando a rebelião de Roberto Teixeira apeou do poder – e da vida – o Intendente Andrés Tabaréz, seu pai, mas tinha ouvido o bastante sobre a história de Pâmperos para saber que a Casa Moreira de Cambará tinha sido leal até o fim. E Seu Jonas, fugindo da justiça de Dom Neco Fagundes, de quem era agregado, correu a se exilar no outro lado do Rio Uruguai.

— Pode levantar, cavaleiro — foi a primeira coisa que Daniela disse ao desconhecido, na varanda do mercado Ortiz, cercada por homens de confiança do seu benfeitor. — O que deseja de mim?

— Desejo servi-la, minha Intendenta. Como guarda-costas, capataz, como um simples peão, se vosmecê quiser. Pâmperos é seu por direito, Dona Daniela — mesmo não estando mais de joelhos, o tom de Seu Jonas era de submissão e súplica.

Daniela Tabaréz fez um gesto como de quem afasta uma mosca.

— Amanhã serei a rainha do chefe Yaros e terei a meu serviço vinte mil guarda-costas haraganos com arcos, boleadeiras e mosquetes roubados dos castellanos que fizeram a bobícia de enfrentar a tribo. Por que precisaria de uma carabina e de um florete pampeano? Quando meus haraganos me colocarem no Trono de Espetos, todas as armas de Pâmperos serão minhas de novo, de todo jeito.

— Com todo o respeito, vosmecê passou mais tempo fora do Continente que lá dentro. Eu posso ser, além de guarda-costas, seu guia, seu historiador, seu diplomata, seu ordenança.

Quando viu que Daniela não parecia convencida, Seu Jonas enfiou a mão por baixo do próprio poncho, ao que os guardas do Señor Ortiz prontamente lhe apontaram as garruchas.

— É um presente para Dona Daniela. Um presente pelas bodas — explicou-se o ginete, em tom conciliador. Puxou a mão de volta, mais despacito que missa de Páscoa, e nela trazia um embrulho de pano, que estendeu à chinoca, inclinando a própria cabeça.

— Contos Gauchescos e Lendas de Pâmperos — leu em voz alta Daniela, depois de desembrulhar o livro e mirar-lhe a capa. — É… É o… O livro do meu bisavô!

— Dom Javier Tabaréz, O Doutor Intendente — respondeu Seu Jonas. — Se lhe for de gosto, leia a dedicatória, Dona Daniela.

— Para meu leal Juvenal Moreira, com sincera admiração e agradecimento por todas as peleias, Javier T.

— Sê feliz no casamento, Intendenta — o ginete fez uma mesura e se virou para partir, mas parou quando Daniela o chamou de volta.

Mais tarde, sentada ao lado do chefe Yaros na churrascada que se seguiu à cerimônia, com Seu Jonas abancado num estrado perto de si, Daniela meditou sobre o que tinha escolhido fazer da própria vida e concluía, uma vez mais, que tudo valeria a pena. Ainda não tinha se deitado com homem, mas Yaros, apesar do tamanho descomunal e da fama de comandante terrível quando montado em seu bagual de batalha, tinha lhe tratado bem desde o primeiro encontro, quando o Señor Ortiz lhe tinha apresentado. A noite de núpcias não a assustava mais que as batalhas que teriam que travar até reaver sua herança e a grandeza da sua Casa.

Olhou para uma das covas cheias de brasas vivas onde era assado o banquete nupcial. Pendendo sobre o braseiro, enormes espetos de pau com carne de ovelha e de rês pingavam sangue e gordura, que evaporavam em aromas que inticavam com o paladar. Daniela sorriu pensando no futuro e no lema dos Tabaréz, que recitou para o marido em voz alta, enquanto batia sua guampa de vinho na dele para um brinde.

— Sangre y Fuego!