As Crônicas de Geada e Fogo de Chão – Capítulo 3

Redação A Taberna
Por Redação A Taberna
23/11/2017

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> Capítulo 1 (Neco): A Friagem Vem Vindo
> Capítulo 2 (Catarina): O Destino Visita a Invernêra

CAPÍTULO 3: O SENTINELA

JOÃOZINHO

João Gaudério puxou a rédea para fazer parar o zaino e olhou para trás, a fim de mirar pela última vez a Invernêra, que tinha sido, desde quando ele era muito piazito, sua única Querência.

Benjamin Fagundes, o tio de parte de pai que tinha convencido o guri a entrar para os Sentinelas, notou a parada do sobrinho e lhe gritou, lá da frente da pequena tropa:

— Apura, Xiru, que tem muito chão até a Taipa!

Era isso. Joãozinho – que era chamado João Gaudério, como tantos filhos sem pai que andavam por Pâmperos – deixava a estância para sempre, com a intenção de ingressar na respeitada Irmandade dos Sentinelas do Pampa, guardiães da Grande Taipa. A diferença para muitos outros Gaudérios, matutou o rapazote, é que ele sabia muito bem a quem chamar de pai.

Todas as gentes dos Campos de Cima sabiam que Joãozinho era filho de Dom Neco Fagundes, Protetor do Norte. Também o sabiam os cortesãos que subiram a Serra até a Invernêra acompanhando o Intendente Dom Roberto Teixeira, e que tinham se banqueteado no grande galpão da estância apenas uma noite atrás. Ainda assim, mesmo sendo filho de um dos mais poderosos senhores do Continente, o jovem bastardo não pôde sentar com o pai e os irmãos na churrascada.

Tinha ficado lá atrás, com os peões, vendo passar a comitiva de bem-nascidos que ocupavam as mesas por ordem de importância: os Teixeira e Leindecker mais graúdos sentaram-se com Dom Neco e a família, à vista de todos. Os Leindecker de parentesco mais aguado ficaram com os cavaleiros, agregados e altos funcionários da Invernêra e da Intendência. E só depois destes, já perto da porta da rua, sentaram-se os demais empregados da estância. E João Gaudério.

— Melhor jantar aqui, que posso comer e beber sem ficar de frescura! — tinha dito aos vizinhos de banco durante a festança, embora fosse mentira e todos à mesa soubessem disso.

De canto de olho, Joãozinho cuidava a mesa principal, onde Fagundes, Teixeiras e Leindeckers se atiravam com voracidade aos grandes nacos de carne sapecada servidos em grandes amelas de madeira. Seu Libório tinha ordenado aos assadores que preparassem muitos espetos de costelão de rês, paleta de ovelha e salsichão, que eram servidos com farinha de mandioca, maionese de pinhão e, por sugestão de Dona Catarina para agradar Dona Kirsten, cuca.

Dom Roberto Teixeira, afamado em todo o Continente pela extensão de seus apetites, ia amontoando no prato grandes ossos descarnados de costela na mesma proporção em que entornava os copos de vinho tinto oriundos das pipas dos Turra de Campo dos Bugres. O Intendente tinha iniciado a bebedeira tomando serrana, a tradicional cachaça batida com mel silvestre, mas passou ao vinho assim que a carne começou a ser servida. O governante maior de Pâmperos dominava as conversas da mesa, contando piadas e causos de batalhas de antanho, tão alto que sua voz superava em volume o som da gaita tocada pelo velho Antero, e quase todo o galpão parava para escuitar a charla de Roberto.

Joãozinho não quis ouvir as bravatas do Intendente. Já tinha bebido mais vinho do que costumava e tinha medo de dizer ou fazer uma besteira, por isso saiu para a cerração e o frio da noite serrana.

Um vulto negro se aprochegou junto ao cepo onde o bastardo tinha ido se sentar. Ao sentir que não estava sozinho, Joãozinho levantou-se, num salto, a mão direita procurando instintivamente a adaga na cintura.

— Ah. Tio — disse João Gaudério quando reconheceu Benjamin Fagundes, o Sentinela que tinha vindo da Grande Taipa para prestar respeito ao Intendente.

— Não quis ouvir os causos de Dom Roberto, sobrinho?

— Cansei de lá de dentro.

— Cansou de não ter lugar, João?

O rapaz sentou e ficou em silêncio. O Sentinela sentou ao lado do sobrinho e com ele partilhou da quietude fria da noite por um tempo, até limpar a garganta e dizer o que pretendia já há algum tempo.

— Já pensou em ir pra Grande Taipa, Gaudério?

João virou a cabeça para encarar Benjamin.

— Ser um Sentinela,  como o senhor, Tio?

— Ser um Sentinela maior que eu. Tu é filho do Neco, mas nunca vai poder herdar a Invernêra, nem casar com a filha de um estancieiro importante, nem comandar uma tropa em nome do teu pai ou do Intendente. Aqui o teu futuro é ser peão, Joãozinho. Na Taipa, tu pode ser grande, pode até chegar a Comandante. Lá ninguém se importa se tu é Seu, se tu é Dom, se tu tem pai ou se nasceu de chocadeira. Lá na Taipa todo homem é só um homem e todo homem pode ser grande se mostrar que tem valor.

João Gaudério ficou todo abobado só de pensar em comandar a Irmandade dos Sentinelas do Pampa, em fazer parte de algo maior, em ter centenas de irmãos com os quais conviveria em pé de igualdade, sem ser olhado de cima nem se contentar com restos. Imaginou-se diante da Grande Taipa, a maior construção do mundo inteiro, que protegia Pâmperos do que quer que houvesse no Lado de Lá…

E o que tinha ele a perder, deixando a Invernêra? Seu pai, Dom Neco, que era o único a impedir que Dona Catarina o escorraçasse da estância, estava de partida para Porto dos Casais, onde assumiria o cargo de Espora do Intendente. Não havia nada melhor a fazer da vida que aceitar a proposta de Tio Benjamin – que, ele desconfiava, também era a proposta de Dom Neco para ele.

João olhou para o Sentinela, respirou fundo e tomou a decisão.

— Simbora, Tio.

Benjamin abraçou o sobrinho.

— Eita, Índio bom!

Joãozinho lembrou de tudo isso, conferiu mais uma vez se a mala de garupa estava bem presa, esporou o seu zaino e troteou até a vanguarda da tropa. A Grande Taipa e a Irmandade dos Sentinelas do Pampa esperavam seu mais novo recruta.