As Crônicas de Geada e Fogo de Chão – Capítulo 2

Redação A Taberna
Por Redação A Taberna
15/11/2017

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> Capítulo 1 (Neco): A Friagem Vem Vindo

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CATARINA

Era a primeira vez que Dona Catarina Turra Fagundes via o comboio oficial da Intendência em movimento. Por mais que fosse a Patroa dos Campos de Cima e senhora da Invernêra desde os dezessete anos, o tempo que passou no Campo dos Bugres convivendo com Dom Genaro Turra, conhecido em toda a Serra pela sovinice, tinha deixado uma marca muito funda no seu caráter, e ela só conseguia pensar no desperdício de tudo aquilo.

Seu olho crítico não se revirava apenas pelo carretão de dois andares e seis eixos, puxado por seis juntas de robustos bois de carga, onde vinha instalada com os filhos e aias Dona Kirsten, a esposa do Intendente. Não, o exagero e a gastança iam muito além. Havia homens demais com adornos demais nas pilchas, carretas demais, cavalos demais, metal precioso demais nas selas e arreios.

Foi só lá pelo décimo ou décimo-primeiro suspiro de desagrado de Catarina que Dom Neco, que se empertigava ao lado da esposa e dos filhos mais teso que cusco em caíco, quebrou o silêncio e murmurou, apenas para os ouvidos dela:

— Vê se não me dá essas bufadas quando a Alemoa estiver perto…

Como resposta, ela apenas moveu o braço um tantinho para trás, quase sem dar na vista, e beliscou uma das nádegas do marido, seu código secreto para dizer que tudo ficaria bem.

Mas a senhora não pôde segurar o gemido de espanto quando o ginete gordacho que cavalgava junto à vanguarda da tropa apeou do tordilho, tirou o chapéu e caminhou até a família Fagundes.

— Dona Catarina, muito me agrada ver que ainda a surpreendo — disse o homem, que vestia um pesado poncho de lã tingida de dourado, com a capivara negra dos Teixeira bordada no peito.

— Dom Roberto, vosmecê parece muito bem.

— A la fresca! Pode me chamar só de Roberto, querida. E não precisa me mentir, que eu sei que ando mais roliço que filho único de doceira.

Dona Catarina estendeu a mão para que o Intendente a beijasse e em seguida virou a cabeça para observar o marido enquanto este saudava o velho companheiro. Os olhos treinados da matriarca notaram que Neco também estava um tanto abalado pela visão de Roberto. Como dizer, ao vê-lo, que, nem quinze anos antes, aquele homem agora desajeitado e que resfolegava para caminhar era um ginete parrudo e ágil, capaz de dançar a chula, competir na cancha reta e derrotar o poderoso Ramón Tabaréz no Arroio Ancinho com a mesma desenvoltura?

Com a disciplina cultivada através dos anos, o senhor da Invernêra procurou não demonstrar o que sentia. Em sinal de respeito ao seu superior, sacou a adaga que trazia atada à cintura, encostou a ponta em seu próprio peito e disse:

— Dom Roberto, sê mui bem-vindo. Essa estância é sua.

O Intendente bufou, contrariado.

— Deixa disso, Abostado! Já chega toda a frescura que eu tenho de aturar lá em Porto. Dá-me cá um quebra-costela!

Abraçaram-se longamente. Quando se soltaram, Neco já estava mais relaxado.

— E que fiasquêra é essa, com esse mundo de roupa? O que tu vai usar no inverno, homem? — perguntou o anfitrião ao visitante.

— Não tô mais acostumado com essa friagem aqui de cima.

—  O Libório queria vir em manga de camisa, eu é que não deixei —  Neco apontou o agregado-das-guaiacas, que usava seu melhor casaco, com o lenço encarnado resplandecendo ao sol da manhã. Roberto estendeu a mão.

— Seu Libório, que bom rever o amigo! — o Intendente usou o título de cavaleiro para nomear o subalterno, que ficou com a boca nas orelhas de contentamento.

— Pra vosmecê, é Libório, Intendente.

Dom Roberto começou a responder, mas foi interrompido quando uma mão muito branca, de dedos cheios de anéis cravejados de gemas, pousou em seu ombro.

— Dom Neco, Dona Catarina, creio que já conhecem minha Patroa.

Toda Pâmperos conhecia, até mais do que gostaria, Kirsten Leindecker Teixeira.

— Dona Kirsten, é sempre um prazer — Neco beijou a mão da Patroa das Sete Estâncias.

— Igualmente, Dom Antônio, igualmente — disse Kirsten, mal disfarçando o próprio enfaro, para em seguida virar-se para Catarina e abrir um sorriso mais falso que cobra engambelando sapo.

— Catarina, querida, quanto tempo? — as senhoras deram-se três beijinhos e passaram à apresentação das crias.

Os filhos dos Fagundes, todos vestidos formalmente, estavam lado a lado, uma escadinha que começava por Roque, que estava quase completando dezesseis anos, passando por Sandra, Brandão e Anita, até chegar ao caçula Ricardo, de apenas três anos. Joãozinho, o bastardo da idade de Roque, que era chamado de João Gaudério por não poder usar o sobrenome de Neco, estava lá atrás, com os peões, e Catarina esperava que Dom Roberto e a Alemoa não reparassem nele. Esperava, aliás, que ele fosse embora e não mais voltasse, uma prece que Deus nunca atendia.

Já os herdeiros da Intendência eram três – todos loiros, alvos e de olhos azuis, como a família da mãe. Godofredo, o primogênito, era quase da idade de Roque, Marcela era um pouco mais velha que Brandão e o caçula, o pequeno Thomas, tinha quatro anos. Dona Catarina notou que a prole tinha puxado à Alemoa em algo mais que a aparência: pareciam ter, os três, a mesma cara de quem provou mocotó e não gostou, embora a característica fosse mais pronunciada em Godofredo que nos outros dois.

Também fazia parte da comitiva, como não poderia deixar de ser, a abundante parentada da Patroa, não só os irmãos mas também numerosos primos de diversos graus. Os Leindecker da Feitoria, a mais rica das grandes Casas de Pâmperos, tinham muito jeito para encostar os seus em cargos públicos importantes e até nos desimportantes. “Onde houver uma teta, lá haverá um Leindecker mamando”, dizia-se nas rodas de mate de todo o Continente.

O primeiro a dar as caras foi Seu Jâime, o imponente e gavola Primeiro-Ginete de Pâmperos, irmão gêmeo de Kirsten e de funesta fama em todas as Sete Freguesias por ter assassinado o antigo Intendente, Dom Andrés Tabaréz, durante a rebelião comandada por Roberto.

Mas foi a chegada de Tito, o Leindecker anão, que fez todos os Fagundes, cavaleiros agregados, peões e prendas espicharem o pescoço para apreciar a inusitada cena. Tito, o Miúdo, o Pitoco, o Toquinho de Amarrar Bode ou, como ele gostava de ser chamado nos bolichos e chineiros, o Titã. Vestindo roupas adequadas ao seu tamanho, com botas, esporas, bombacha e um pesado pala no carmesim de sua Casa, com o leão-baio dourado dos Leindecker orgulhosamente saltando do peito, aquele gauchinho em miniatura sempre causava comoção onde quer que fosse.

Enquanto Dona Catarina conduzia os hóspedes para a sede da Invernêra, onde um bem fornido café colonial os aguardava, ela pode escutar, de canto de ouvido, o Intendente dizer ao seu marido a razão da visita.

—  Neco, vou ser bem curto e grosso contigo, como tu sempre foi comigo. Vim até aqui porque preciso te levar comigo pra Porto dos Casais.

Que Deus tenha misericórdia da nossa família, foi tudo que conseguiu dizer para si mesma a Patroa dos Campos de Cima.

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> Capítulo 3 (Joãozinho): O Sentinela