Cultura nerd de mãe para filha (e vice-versa): como surgiu o Anime Rescue

Ana Melo
Por Ana Melo
11/04/2016

Uma filha que cresceu no hospital, ao lado de sua mãe doente, e, solitária naquela realidade, encontrou apoio em animes e mangás. Essa mãe que, mesmo sem conhecimento sobre o assunto, determinou-se a organizar um evento dessa temática para devolver à filha sua infância. Foi assim que surgiu o Anime Rescue, que, mais do que um evento, é uma demonstração de amor de Adriana para Paolla – de mãe para filha.

Há 15 anos, Adriana Almeida descobriu que não poderia mais ser mãe. A mulher de, na época, 29 anos precisou fazer uma histerectomia, que seria a primeira de 56 cirurgias que fez até hoje. Aos 44, Adriana já teve múltiplas perfurações no intestino, esteve em coma, passou por muito sofrimento e, em muitos momentos, acreditou que não iria sobreviver. Até hoje, as complicações não param: há seis meses, descobriu um tumor inoperável em um dos rins.

Ao seu lado, Adriana teve Paulo Giordano, seu marido há 24 anos. “Mesmo nos piores momentos da minha vida, ele não me abandonou. Ele foi meu enfermeiro, meu pai, meu amigo, meu irmão. Ele foi uma pessoa muito importante na minha vida”, declarou. A filha deles, Paolla, também acompanhou todas as dificuldades enfrentadas pela mãe. “Quando eu era pequena, eu não entendia muito. Quando fui crescendo, fui tendo mais noção. Faltei aula, briguei com colegas que não entendiam e cresci sem amigos por não aceitar que eles falassem mal da minha mãe por algo que eu sabia que não era verdade. E não me arrependo de nada. Se tivesse que fazer tudo isso e ficar com ela de novo, eu o faria”, afirmou Paolla. Passando por tudo isso, a garota encontrou apoio em animes e mangás, que lhe trouxeram ensinamentos importantes: “Eu gosto da história de vida das personagens, a força que têm e os ensinamentos de não desistir e de ser forte, que eu uso muito na minha vida”, contou.

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Diante de tudo isso, Adriana procura manter-se firme. “Tento me mostrar uma rocha, uma fortaleza, mas, na realidade, não sou isso. Na verdade, estou fraca e vulnerável, mas, se eu me deixar mostrar-me assim, tudo acaba, desmorona”, disse. Mesmo com uma dor que poderia derrubar completamente a maioria das pessoas, Adriana transforma sua tristeza em beleza, sobretudo através de sua poesia. “Eu escrevo muito quando estou triste. Eu demonstro ser feliz, mas, no fundo, sou uma mulher muito triste, porque perdi muita coisa que não queria ter perdido”, disse.

Até hoje, Adriana mantém um blog com seu trabalho, e, como poetisa, venceu o concurso da Academia Literária Stella Brum. Foi seu professor de literatura da Escola Técnica de Comércios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul quem a inscreveu. Ela escreveu a poesia “Os Meninos e os Sonhos”, a respeito dos garotos que pediam dinheiro em um semáforo que ela observava quando saía da faculdade. Quando a chamaram para lê-la, Adriana não usou a folha onde estava escrita a poesia, mas a declamou a partir do que sabia ter escrito, conforme seu sentimento. “Do mesmo jeito que um cosplayer se transforma em outra pessoa para mostrar aquilo que ele não consegue descaracterizado, eu, na escrita, consigo mostrar aquela Adriana que não sou na vida real”, afirmou. Foi, também, com esse pensamento que surgiu o Anime Rescue.

A IDEIA

Em 2014, ao ver as críticas sobre um evento multitemático do Rio Grande do Sul, Paolla Giordano sugeriu fazer um encontro no Parque da Redenção, em Porto Alegre, para as pessoas que o frequentavam. O encontro ocorreu nos dias 15 e 16 de novembro, e, naquele final de semana, juntaram-se 400 pessoas. Paolla, por sua personalidade mais tímida, tinha o apelido de Turtle, tartaruga, porque, segundo sua mãe, ela “vivia dentro de seu casco”. Durante o evento, porém, Adriana notou que a filha estava interagindo mais e fazendo amigos, já que realmente gostava daquele meio. “Eu perguntei para ela: ‘Tu tá feliz?’, e o olho dela brilhou”, recordou.

A partir disso, Adriana Almeida passou a pesquisar sobre os eventos do gênero e a perceber o que eles significavam para as pessoas que os frequentavam. “Eu comecei a ver que não só a minha filha, mas cada um ali tinha uma história diferente, sua maneira contida e seu jeito de se expressar, mas, quando estavam caracterizados de cosplay, eles viravam outras pessoas”, explicou. Então, ela decidiu que iria organizar seu próprio evento, a partir de um objetivo: “Minha filha passou a infância toda dentro de um hospital comigo, lendo mangás e assistindo a animes, e isso era uma coisa que me machucava muito. Eu queria muito devolver para ela tudo aquilo que ela tinha perdido”.

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Em sua pesquisa sobre os eventos, Adriana foi descobrindo o que as pessoas gostavam e não gostavam sobre eles e, a partir disso, o que gostaria de ter no seu.  “As pessoas falavam muito a palavra ‘antiga’, como ‘Ah, o evento das antigas que era legal!’, e eu queria saber muito como era isso”, contou. E Adriana descobriu, e foram essas coisas que procurou colocar no Anime Rescue. “Evento em escola, porta aberta, grupos que se encontram para tocar violão, conversar e trocar ideias, as bandas e os grupos de danças, que estão perdendo lugar para os youtubers”, destacou.

Adriana e Úrsula

Adriana com Úrsula, a voz de Naruto

Ao longo desse processo, Adriana lembrou-se de que Naruto era um dos personagens favoritos de Paolla, que fez parte de sua infância e de seu amadurecimento. “Aí eu comecei a pensar: ‘Tá. Quem é Naruto? O que o Naruto faz?’”, brincou Adriana. A partir disso, ela descobriu a dubladora da personagem, Úrsula Bezerra, com quem entrou em contato. Adriana lhe contou um pouco da história de sua vida, e Úrsula concordou em ir ao evento.

O RESGATE

Para criar o Anime Rescue, Adriana mudou o registro de uma empresa de cópias que tinha para a produtora Rescue Eventos. Ela e Paolla já haviam criado o nome, e, para o logo, escolheram uma fênix. “A fênix simboliza muito bem o que aconteceu comigo. Eu sou uma fênix, porque renasci das cinzas milhões de vezes. E, por isso, eu venho resgatar tudo o que a gente perdeu. Essa é a essência do nome e do evento”, destacou Adriana.

Embora nunca tenha concluído as várias faculdades que fez – direito, contabilidade, administração e negócios imobiliários – em função de suas cirurgias, Adriana considera-se uma administradora nata, e já havia trabalhado na área em uma clínica médica. Assim, ela ficou responsável pela organização, e Paolla cuidou do site e das redes sociais. Na equipe, ainda estavam outras três pessoas: Amir Salib, Giovanni Träser e o pai de Paolla, Paulo Giordano.

Amir, que Adriana considera um “irmão de coração”, ficou responsável pela divulgação externa do evento, distribuindo cartazes em faculdades, escolas, mercados e padarias. O desenhista Giovanni, que a organizadora conheceu na Feira do Livro de Porto Alegre, criou a arte do evento, incluindo a mascote. Em sua homenagem, Adriana criou uma sala de desenho, que recebeu o nome do desenhista. Paulo, por sua vez, é responsável pela empresa AGA impressos e, portanto, cuidou de banners, totens e toda a publicidade impressa. “A organização do Rescue é isso: uma família unida em prol de um objetivo só”, ressaltou Adriana.

Contudo, houve, é claro, vários desafios, ou, como coloca Adriana, “muitas portas fechadas”. “É muito difícil lidar com pessoas que não se preocupam com os outros e encontrar alguém que pense como tu, que aceitasse o que eu estava inventando e abraçasse a causa junto comigo”, salientou. Além disso, parte do lucro do evento seria destinada a um asilo e a uma casa de crianças com deficiências; no entanto, isso não aconteceu, porque terminaram no negativo. Independentemente de críticas e imprevistos, entretanto, Adriana afirma que conseguiu atingir seu objetivo. “Eu consegui, porque vi pessoas muito felizes lá dentro, e elas vieram me dizer ‘obrigada’”, afirmou.

Apesar de todas as dificuldades, Adriana se mantém otimista e já pensa nas próximas edições do Anime Rescue. “Eu ganhei grandes amigos, pessoas que vão ficar no meu coração para sempre e que vão continuar trabalhando comigo enquanto eu estiver viva e enquanto o evento acontecer. E, se um dia, no meio do caminho, eu fechar meus olhos e, por minhas doenças e por minhas dores, não conseguir ficar mais em pé, a única coisa que peço é para a Paolla não desistir e dar continuidade. Para ela lembrar-se da mãe dela parada no meio do pátio como uma rocha, apavorada sem demonstrar, recebendo todo mundo na primeira edição.

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